ARTIGO — Literatura de guardanapo

Tão poucas palavras que cabem num guardanapo. Fechado. Isto é, dobrado em quatro.

“Era um dia frio e cinzento e Marco Aurélio fumava seu quinto cigarro” – ponto. Que mais? Mais nada. Não saiu disso.

“Joaquina teve três filhos, todos saudáveis, e se preparava para o quarto quando descobriu que…” – reticências. Que o quê? Que nada. Morreu aí.

“Às vezes Danilo se flagrava contemplando as flores de sua vizinha, que eram tão belas quanto ela;” – ponto e vírgula. Que lindo, Danilo! E aí? Bom… E aí que é isso.

Que atire o primeiro volume único de “Em Busca do Tempo Perdido” aquele escritor que nunca saiu da primeira frase. Nem conto, muito menos romance. Não desenvolve, mas a primeira frase é bonita. O autor gosta dela. Prefere não apagá-la. Vai que um dia a ideia volta. Cabe num guardanapo. Às vezes, nasce em um guardanapo. Quiçá seja essa sua função: se restringir a uma frase. Uma única frase, e toda uma história por trás. Uma frase basta. Maior que uma observação, menor que uma nota de rodapé. Mas está bom. Literatura é isso, não é? Poucas palavras e um background imenso por trás. Literatura serve para inspirar, certo? E entreter, fazer refletir… Ou só para encher páginas em branco. Às vezes, um guardanapo serve. Se não para o que já foi citado, ao menos para limpar a boca.

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