ARTIGO — O romance filosófico e a literatura contemplativa

Quanto mais me enveredo pela densa floresta da literatura contemporânea, mais percebo que poucos são os que escolhem não se enveredar. Enquanto uns armam-se com dragões, espadas, herois, anjos e demônios, outros se acomodam na clareira destroçada do mundo pós-apocalíptico, futurista; um grupo decide armar barracas para encontros íntimos, outro dorme sob estrelas disformes e fantasmagóricas; há alguns viajantes estudando as ocorrências misteriosas das redondezas, e um turista, ousado, resolve caçar vampiros-mesmo. Mas quem, eu pergunto, se dedica a contemplá-los?

“Retrato de Fernando Pessoa”, por Almada Negreiros

Não posso ser pretensiosa a ponto de dizer qual desses aventureiros está certo ou errado. É uma floresta. Ninguém achou a saída dela ainda – e ninguém quer achar. Mas posso ser pretensiosa a ponto de dizer que, na ânsia de explorá-la, poucos são os que se dedicam a observá-los. Isso significa ficar parado à entrada da floresta, vendo-os bancarem os bobos enquanto buscam um jeito de sobreviver com seus recursos primitivos? Não – ao menos, não no meu caso. Isso significa acompanhá-los nessa jornada sem, contudo, brandir o facão.

A literatura contemplativa nada mais é do que aquela que se dedica a descrever e refletir sobre o meio. Qual meio? Qualquer um. Seu autor simplesmente senta e observa, como a um programa de TV. Um reality show, vá lá. Um reality show literário. As imagens se compõem à sua frente e ele opina, porque é isso que fazemos quando estamos diante de um programa interessante. Opinamos.  Opinamos porque não podemos interferir diretamente.

“Poxa, olha como fulano é babaca…”, “ciclaninha surpreendeu hoje, hein?”, “hummm, beltranão falou uma coisa interessante…”, puta que pariu, fulano é babaca demais!” – assistir, refletir, estudar… Eis a função da literatura contemplativa. Constatando o óbvio: ela contempla.

Nesse momento, Juninho levanta a mão e pergunta: “mas Anna, a literatura contemplativa não se associa a nenhum gênero?”, e eu respondo: claro que sim! Um dia, escolhi dormir numa das barracas e contemplei o meio através de um filtro erotizado; noutro, me juntei aos cavaleiros e estudei-os enquanto dividia frutas frescas com os elfos; no terceiro, decidi que ia tentar me enturmar com o pessoal das distopias, mas eu não consegui acompanhar seu raciocínio e desisti.

A literatura contemplativa, Juninho, não é um gênero; provável que nem seja um subgênero. Ela é um recurso. O recurso da contemplação. Ela não se preocupa em contar uma história. Ela se preocupa com a reflexão intrínseca à história. E é claro que Juninho torna a erguer o braço e questiona: “mas isso não é chato?”

Pra caralho. A maioria, hoje, não quer isso. É chato pra quem lê, é chato pra quem escreve. Imagine só, estudar cada ação de cada personagem em cada momento isolado de uma narrativa. É insuportável. “Por que fulano, que é um babaca, foi tão gentil na cena X? E por que ciclaninha falou que ia fazer isso e aquilo, e fez o contrário? Analisemos.”

Muitos preferem disfarçar esse recurso a fim de não tornar os acontecimentos enfadonhos. Jogam algumas frases aqui e ali, ou dedicam um parágrafo a um “estudo de caso”. Mas a literatura contemplativa, quando é promovida a “estilo”, vai mais longe. Ela propõe a análise isolada de cada mísero gesto – como mexer o café que descansa numa xícara amarela.

Quando decidi que esse seria meu estilo, mal sabia que seria uma nômade na floresta densa, valendo-me da caridade, dos restos de comida, sem pertencer a lugar algum. Meus companheiros me olham e me veem, sorriem polidamente, mas não nos enturmamos. Logo, estarei noutra parte, e despedidas sempre são dolorosas. Melhor assim, melhor não se encaixar. É inspirador.

“Ora, que prepotência! Que vitimização!”, resmunga Juninho, que jamais diria “prepotência”. Eu me encolho, envergonhada, e tento rebater: “não somos todos prepotentes, Juninho?” – mas ele já desistiu da aula e os outros dormem. Viver à margem, ser um flâuner

Sim, ele tem razão; a literatura contemplativa é a dos prepotentes mimizentos.

Oh! Veja quem nos encontrou! Os perdidos! Estavam por aí, na floresta, fazendo suas anotações, pensando… Macambúzios e roedores de caneta. Acho que ficarei com eles por um tempo. Eles têm vinho.

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3 comentários sobre “ARTIGO — O romance filosófico e a literatura contemplativa

  1. Excelente proposta de reflexão. Em qualquer grande clássico da literatura mundial encontramos personagens ricos, que pensam, sentem e interagem com descrições pontuais de seus “íntimos” pelo autor. Gênero de escrita cada vez mais raro entre os autores contemporâneos. Boa dica!

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  2. Curti muito seu artigo, Anna. Entendo seu ponto de vista, mas confesso que não sou profundo conhecedor da literatura fantástica contemporânea para opinar com assertividade. Tive algumas experiências que terminaram por me afastar das produções mais recentes. Penso algumas vezes antes de me aventurar pela obra de algum escritor da atualidade, principalmente de literatura fantástica. Vejo multidões de adoradores e números incríveis por obras que não me disseram muito durante a leitura. Felizmente tive algumas boas surpresas em 2014 com livros atuais (não necessariamente de literatura fantástica). As certezas e as palavras, de Carlos Henrique Schroeder foi uma bela descoberta. É experimental, minimalista e está disponível gratuitamente na página do autor. O Boxeador Polaco de Eduardo Halfon foi outro. Deixe o quarto como está, de Amilcar Bettega eu também gostei bastante (não é tão novo, de 2002, mas é contemporâneo). São todos livros de contos. Não sei se você aprecia o formato. Ah, há também a Adriana Lisboa, que já é uma escritora consagrada e lançou o excelente romance Hanói em 2014 (ou 2013). Grande abraço, Anderson Henrique

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    • Opa, Anderson, muito obrigada pelas recomendações! Ultimamente eu tenho preferido os contos mesmo, darei uma olhada nesses títulos! Obrigada também pela visita, um abraço!

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