CRÔNICA — O psiquiatra, a consciência e o duende do porta-lápis

“Qual é a primeira lembrança que você tem de sua infância?”, indaga o psiquiatra barbudo que se hospeda no cômodo mais inóspito de minha mente, sem se importar com a péssima sonoridade de sua frase. Eu tenho a resposta na ponta da língua:

Estamos eu e minha mãe num quarto amplo do apartamento no Rio de Janeiro. Os gibis da Turma da Mônica se distribuem pelo assoalho como um tapetão; estimo que sejam cinquenta exemplares, mas deve ser mais. Eu tenho quatro anos. Minha mãe, na juventude da qual desfruto hoje, ensina-me a ler.

“C com A faz…?”
“KÁ!”, respondo, empolgada.
“Isso! C com E faz…?”
“KÉ!”.
“Não. Faz SÊ. C com I…?”
“SÍ!”
“Isso! C com O…?”
“KÓ!”
“E C com U faz…?”

Dou uma risada histérica antes de responder, enchendo o peito:

“CUUUUUUUU!!!!!!!”

Foi assim que comecei a ler e escrever. Pouco depois vieram os caderninhos de caligrafia, as aulas caseiras de composição de frases, de uso de vírgulas e o ingresso na escolinha, já bem avançada em Português. Aos seis aninhos, bem lembro, escrevi meu primeiro livro usando as folhinhas de lembrete do meu pai. Chamava-se “Eu Sou Anna Carolina”, algo assim; contava a história do meu nome.

O psiquiatra coça o queixo e ajeita os óculos. Eu informo: “daí não parei mais. As pessoas decidem tardiamente o que querem fazer da vida, ou descobrem, ao longo dos prazeres, aquele que mais lhe agrada e o promove a hobby. Eu não. Eu sempre soube.” Ele, entretanto, pondera: “você não saberia se alguém não tivesse dito.”

Será? Ajeito-me no divã e tento me lembrar… “Foi minha professora da alfabetização”, concluo, sem muita dificuldade, “e meus coleguinhas então. Eles foram os primeiros, depois de minha mãe, claro.”

Eu sempre li com muita facilidade e era a única da turminha que gostava de fazê-lo. Quando não estava lendo, estava escrevendo. Isso não mudou até hoje, só ganhou mais companheiros — a música e os filmes. Mas, se eu descobri que me condenaria à escrita porque isso me foi dito em algum momento, suponho — não, tenho certeza — foi na alfabetização.

Professora Fátima, eu te amo e te odeio por isso.

Não satisfeito, o psiquiatra torna: “mas você aspirava a outras coisas?”. Eu, romanticamente, diria que não, mas é melhor ser sincera. Respondo: “eu falava que ia ser veterinária porque amava cachorros. Mas a ideia não durou muito. Nada dura muito comigo, se não a escrita. Mais tarde eu consideraria fazer Direito, Jornalismo, Letras, algo que não me afastasse dela… Nada certo, porém. Nunca tive outra certeza.”

Aí, aproveitando que ele está anotando o que digo, filosofo: “às vezes acredito que só temos certeza de uma única coisa no mundo. É como se fosse uma roleta, sabe? Você ‘sorteia’ sua certeza. Uns têm certeza que vão casar e ter muitos filhos; outros têm certeza que vão ser ricos; outros têm certeza que viverão sem descobrir qual sua certeza (essa é cruel) e eu tinha certeza de que seria escritora. Mas, paradoxalmente, a certeza não serve de nada, não é?”

Ele concordou: “a certeza é forjada. Há uma linha tênue entre certeza e um sonho muito intenso.”

Eu teimei: “no meu caso, é certeza, doutor.” Ele se poupou de contestar.

Prosseguimos para quando eu inventei que ganharia o Prêmio Nobel de Literatura aos 25 anos.

“Por que tão cedo?”, mostrou-se curioso e um tanto divertido. Egocentrismo seria um decreto apropriado, mas à época, em meus tenros dez anos, eu não tinha noção do que egocentrismo significava. Evoquei outra lembrança:

O palco do teatro municipal. Apresento minha trova, correndo com as palavras que é para não correr do palco. Os rostos estão imersos no escuro, só há luz sobre mim. Céus, que vergonha!

Fico em 3º lugar no concurso de trovas do colégio.

“Assim eu comecei a me interessar pela disputa”, comentei; até então, escrevia pelo mero prazer de escrever — como deveria ser sempre. Aí contei: “estava na 4ª série. Foi quando vi que tinha talento para me destacar dos demais. Investi na poesia. Os professores adoravam. Meu caderninho de Composição era o mais comentado.”

Aos 13, veio o primeiro concurso escolar de poesia, e o primeiro municipal. Venci ambos.

Aos 14, veio o segundo municipal de poesia. Venci também.

O psiquiatra levanta os pés para que a gosma do meu exibicionismo não suje seus sapatos. Eu sigo contando como investi na poesia, como preparava rascunhos diversos e como, aos 15 ou 16, comecei a escrever meu primeiro livro.

Então minha voz some aos poucos e silencio-me. Ele inclina a cabeça.

“E aí?”, pergunta. Eu dou de ombros.

“E aí que é isso. Acaba aí.”

“O quê que acaba aí?”, questiona. Eu preciso de um momento para refletir.

“Meus triunfos.”

Ele torce o nariz. Ele e minha consciência, uma senhora de idade nariguda, envolta em um manto negro, que parece uma bruxa, mas é só uma velha de luto. Ele, ela e o duende do meu porta-lápis. Todos torcem o nariz. “Pelamordideus”, quase ouço-os dizer. Enrubesço até ficar roxa.

“E aí?”, o psiquiatra repete, como para fugir do estímulo de me expulsar do divã.

Conto do ensino médio. “Até o segundo ano queria fazer Letras, mas vi que não é pra mim. Não parece, eu sei, mas uma coisa não tem muito a ver com a outra”, justifico, e desabafo a respeito da indecisão. “Até hoje não sei o que fazer, qual faculdade cursar… Eu quero escrever, mas posso viver disso. Não dá. É impossível!”

Outra vez, torcem o nariz. Minha consciência decide se meter: “anda, conte como você é incapaz de vender um bichinho de pelúcia! Vamos! É isso que te assombra, não é?!”

Eu evoco a terceira lembrança.

Estou na orientação vocacional do colégio. Eu, quatro colegas e a psicóloga formamos um círculo e ela anuncia a atividade do dia: “vou entregar um brinquedo a vocês e vocês devem vendê-lo. Simples assim. Convençam seus colegas de que eles PRECISAM desse brinquedo.”

Todos vendem. Uns se saem melhor, outros nem tanto.

Eu sou a última. Seguro um leãozinho de pelúcia que em muito me lembra o Alfafa, o leãozinho que eu tinha quando criança, desovado na lata de lixo porque estava fedendo a vômito. 

Apertei-o, nervosa, e tanto que quase o rasguei. Sentia meu rosto ir avermelhando cada vez mais. Fiz uma introdução medíocre — ‘bom, isso aqui é um leão, ele é fofinho e…’ –, travei, meti a cara no bichinho e comecei a rir de nervoso. A psicóloga acabou vendendo o Neoalfafa pra mim, de tanta pena que sentiu do meu estado.

Viro-me para o psiquiatra e para a consciência: “como vou vender meus livros se não consigo nem vender a porra de um leãozinho de pelúcia????!!!!!!!”

Então, confesso: “já pensei em desistir por isso. Eu dependo de concursos, eu dependo de editoras, eu dependo que façam isso por mim. Eu sei que sou incapaz de fazer meu próprio marketing. O que eu escrevo, não vende. Eu só escrevo sobre coisas chatas, achado que são as melhores do mundo! Tô apelando pras noveletas porque me sinto pressionada, mas os romances… Eles serão fracassos!”

O duende do porta-lápis aparece pulando e dá sua risadinha.

“Nobeeeeel, Nobeeeeeel, Nobeeeeel”, começa a cantarolar. A velhaca (a consciência) dá-lhe um tapa e atira-o longe.

“Vai ser sustentada pela mamãe o resto da vida. E vai morrer sem ter escrito nada!”, decreta com seu sorriso podre.

Mas o psiquiatra intervém antes que eu comece a chorar.

“Esse mundo é injusto”, ainda reclamo. “Eu sou a autora, eu não deveria ter que fazer meu marketing, minha capa, minha publicação… Por que eu nasci aqui, nesse país onde a literatura não é valorizada?! Por que o público só gosta de besteiras?! Eu também não posso depender de júris… Eu preciso me mexer!”

Respiro com dificuldade. A consciência solta um bufo impaciente e some, pois não está a fim de gritar comigo. O duende vai embora rodopiando e rindo, ainda cantarolando, porém mais baixo e com a língua embolada; percebe que se tornará entediante dali pra frente.

Estamos eu e o psiquiatra novamente, então.

“O que você acha que deve fazer?”, ele pergunta. Eu dou de ombros.

“Nem o tarô tá me ajudando, doutor.”

Instaura-se um silêncio breve, durante o qual ele me analisa atentamente. Depois, rabisca algo em seu bloquinho, arranca a folha e me diz:

“Vou te receitar Rivotril”.

Despeço-me com um aperto de mão firme e uma folhinha cor de rosa dobrada em quatro no bolso traseiro. Ao deixar o cantinho inóspito de minha mente, entretanto, uma cena ainda me é nítida, e seus sons ecoam como badalares de sinos muito pesados…

“C com A faz KÁ; C com E faz SÊ; C com I faz…”

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