CRÔNICA — A Queda do Dólar

Poucas coisas me assustam tanto quanto a alta do dólar. Não só por razões econômicas, mas por toda a carga negativa da situação.  Não importa de que canto do país você seja, certamente lhe vem um arrepio a cada vez que dizem “o dólar subiu”. Eu diria, até, que é universal. Menos pros americanos, claro; lá isso é uma ótima notícia. “Good morning darling, did you see the dollar is up?” – e um casamento deixa de ir pro buraco. Mas os EUA são um universo à parte. Todo mundo sabe o que significa a alta do dólar. As mãos suam frio e o rosto se contorce em desespero. “Fodeu.” Alguns caem sentados e choram, mães abraçam com força os seus filhos, maridos viram alcoólatras, a sensação de impotência é avassaladora.

Na primeira vez em que meu pai me disse que o dólar tinha subido, eu devia ter uns quatro anos; lembro-me bem de seu semblante taciturno. Ele era viciado em mascar tabaco, e fazia-o naquele momento. Tirou a cinta e a estralou na mão calosa. “O dólar subiu, Amadeus”, e eu, mesmo ignorante, mesmo sem fazer a menor ideia do que aquilo queria dizer, mijei nas calças. Quando chegava a três, ele virava católico. “Meu Deus, ‘bençoa essa casa e essa família, que nós somos honestos e do bem, não deixe a praga chegar aqui”. E se passasse de três e cinquenta, minha mãe juntava as coisas e íamos dormir na casa da vovó.

Já na faculdade, tive uma namorada que seguia o fluxo da moeda. “Hoje não, tá alto”, “vem pra cá, baixou”, “reserva o sábado, caiu pra um e cinquenta”, não dá mais Amadeus, dois e oitenta!”. Acabei me casando com sua melhor amiga, em um e noventa e quatro, e ficamos juntos até três e um.

“É, amigo… O dólar subiu”, declarou o advogado do divórcio, antes de me deixar na merda. Porque significa isso a expressão, como eu ia dizendo. Aquela gravidez acidental sempre vem acompanhada de uma alta brusca. O dólar sobe e você já sabe que tá chafurdado até o pescoço. Eu até tentei me casar de novo pouco depois, aproveitando a baixa oscilação repentina, mas não deu certo também; “o dólar subiu”, murmurou ela, e só não arrumei briga com o amante porque previram que subiria ainda mais.

E por falar em previsões, já começam a se espalhar pelas praças os anunciadores do Apocalipse. “Vai chegar a cinco!”, gritam, sacudindo uma cópia do índice mais recente. “Redimam-se que vai chegar a cinco!”. Ontem mesmo bateram à minha porta dois economistas. “É a maior alta em quinze anos, senhor! Você não pode ignorar o poder da moeda!” – e me convidaram para uma roda de debate a respeito da intervenção do câmbio em nossas vidas.

Eu fui. Tinha água. Natural, digo. De graça.

Mas se ontem fui dormir sentindo que o mundo se sentava sobre meu peito, hoje despertei com um bom humor raro. E creio que não fui o único. As pessoas estavam mais relaxadas nos pontos de ônibus; o padeiro sorriu e me desejou “uma excelente manhã”; Juliana, com quem estou já há um tempo, quer me ver mais tarde. Até a chuva deu uma trégua. Está um friozinho agradável, com sol.

Dias como esse são óbvios. Não foi nem preciso perguntar pro Seu Carlos, da banca perto de casa. O dólar caiu, é certo. Uma brecha para que se possa respirar, limpar um pouco da lama, aquela ilusão de que vai ficar tudo bem, um breve afastamento do medo. Dias de queda são maravilhosos, especialmente quando a queda dura vinte e quatro horas. Imaginem só, esta noite proporei a Juliana que moremos juntos… Deus me livre ela erguer os olhos e dizer “o dólar subiu.”

 

Anna Carolina Rizzon

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