ARTIGO — Plantando bananeira no bananal

Porque eu não consigo desenvolver uma ideia sem ter aquela voz rouca soprando no meu ouvido que ela é péssima e não vai dar em nada, acabei esmiuçando uma história que já caminha para ser das favoritas que formulei e constatar que sim, eu ainda reproduzo muito mais do que crio.

“Ah, mas isso não é tão ruim, a mente humana é incapaz de criar, no sentido literal; ela não inventa as coisas do nada, ela adapta informações.”

Certo, aí é que está o problema, amiguinho.

Eu consumo um percentual de material estrangeiro absurdamente maior do que o material nacional. Seja ficção ou não-ficção. Desde novinha eu achava muitíssimo mais legal estudar História Geral, pois “História do Brasil é muito chata, aqui não aconteceu nada de interessante”. E, de certa forma, isso se perpetua, por mais que a maturidade esteja me propiciando a amplitude do pensamento.

O primeiro lampejo de um drama despretensioso, que poderia se passar em qualquer época, teve como cenário a Alemanha Nazista.

“Ora, que mal há nisso? Você curte a Segunda Guerra Mundial. Você e uma caçamba de gente. É natural.”

Pois é, eu e uma caçamba de gente. Uma caçamba bem grande. Mas a problemática reside no fato de que minha proposta era focar o drama no relacionamento entre duas personagens, de modo que a Segunda Guerra seria apenas o meu pano de fundo.

“Melhor ainda, é só um detalhe”.

Mas quando seu cérebro elabora detalhes que sempre se voltam primeiro para o exterior, isso não é um sinal de que tem alguma coisa errada?

Ok, se a Segunda Guerra é “só” um background, não faria diferença a história se passar no Brasil ditatorial, nos tempos de Revolução Constitucionalista, no Primeiro Reinado, em 1972 ou, sei lá, ontem?

No momento, não, pois a ideia se desenvolveu de tal forma que depende do drama judeu, de Sachsenhausen, da SS e da ideologia enraizada na Alemanha da época. Agora, na altura em que se encontra, ela se apóia nesses fatos, e mudá-los seria despi-los de uma indumentária que lhe serve perfeitamente.

Entretanto, ainda é um pouco triste constatar que me foi preferível comprar as roupas em lugar de costurá-las.

Adoraria pensar que não sou obrigada a “gostar” da história do meu país. Para fins de escrita exageradamente dramática, como a minha, é realmente mais funcional usar aquelas terras massacradas por bombas e eugenia. Dá mais “pano pra manga”, para usar uma expressão nossa.

Mas seria deliberadamente imbecil se acreditasse nisso. Oh, sim, há material fabuloso sobre a condição dos judeus; “O Diário de Anne Frank”, “A Menina que Roubava Livros”, “O Pianista”, “O Leitor”, “A Lista de Schindler” — todos são alguns dos meus filmes e livros favoritos.

Da mesma forma, é de uma pobreza criativa enorme enxergar tragédia e drama onde é certo que há tragédia e drama. A gente sabe disso. Boa parte da sua educação te mostrou isso — faz parte da história do mundo, você é incapaz de viver sem saber quem é Hitler e o que foi o Holocausto. É quase como aprender a falar e andar.

Eu posso até me convencer de que posso trazer uma novidade, que não há fonte inesgotável. Nem por isso deixo de torcer o nariz. Vá lá, minha filha, ser mais uma banana no bananal. Com sorte, farão um bolo contigo, e durará mais do que cinco minutos.

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