RESENHA — A Carta, de Camila Silvestre

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 5/5

Antes de me estender em pontos específicos, devo dizer que valorizo imensamente a identidade nacional na Literatura e que foi isso que me atraiu no conto da Camila. Como é algo que eu muitas vezes falho em reproduzir, admiro a capacidade da autora de explorá-lo tão bem, trazendo algo novo, mas enraizado na abordagem clássica dos grandes autores brasileiros.

Trata-se de um conto sobre a migração de um jovem para São Paulo em busca do seu amor de infância, a Pretinha, e todas as consequências dessa decisão.

A autenticidade do texto, associada a um cotidiano próximo e muito bem desenvolvido, nos oferece algo de fácil ingestão e, principalmente, digestão. A relação do protagonista com a Pretinha não se resume à sua posição social, embora seja influenciada por ela. A Camila soube equilibrar muito bem esses dois aspectos; trata-se de um personagem de classe desfavorecida, trabalhador e apaixonado. A identificação é instantânea, mas não chega a ser óbvia ou clichê. Daí seu maior mérito: a forma como as informações são apresentadas é repleta de metáforas e sacadas inovadoras.

[…] a cidade já o havia engolido, sem nenhuma preocupação em fazer-lhe sala. Tudo bem. Ele não vinha de visita.

Ela também não se estende em moralismos, preferindo deixar o aspecto sociológico por conta do leitor. Ela expõe a crueldade e crueza da vida do seu protagonista e isso basta para que nos consolidemos (ou não) dele. É um texto simples, direto e comovente.

Não tinha registro, ganhava pouco, mas tinha suas alegrias. Era, por exemplo, o melhor fazedor de troco de que se podia ouvir falar. Tinha orgulho em pegar o caixa no fim da tarde, vazio de moedas, notas graúdas que não lhe serviam de nada e, dali ao fim da noite, quando o bar finalmente fechava, quase fazer nascer uma fonte dos desejos.

Destaca-se também a linguagem ampla e a habilidade em expressar o que se quer dizer, isto é, tudo tem um propósito, nada é gratuito. Cada termo possui sua própria essência, o que demonstra que a autora se preocupou com a escolha de palavras e, principalmente, com a de sentimentos. “Fazia calor na plataforma, não o calor vivo de sua terra” é um bom exemplo. O tempo inteiro ela estabelece relações entre a mudança do protagonista para uma cidade-monstro, por amor, e a nostalgia que isso implicou. Reflete, assim, um sentimento muito familiar a nós: a dúvida.

Essa dúvida se estende à Pretinha, à vida que ele levou por sua conta e a vida que levava antes dela. A cidade, portanto, também é uma metáfora. A mudança é uma metáfora. E a carta, obviamente. O dobrar e desdobrar, expondo sua ansiedade, sua incerteza, seu possível arrependimento, mas também certa gratidão e apego à ideia de ter sido tão ousado… Ao jogá-la fora ele não só se desfaz do papel, mas do seu antigo eu, da Pretinha (talvez?), dos receios. A evolução do personagem é clara, dentro e fora da narrativa, o que nos leva ao último ponto.

É um texto que vai além do texto. É um texto que, embora pareça despretensioso, a princípio, possui diversas camadas. É uma história de amor, é uma crítica ao comportamento humano, é o reflexo de uma realidade que tá logo ali, é uma homenagem aos “Pretinhos” e às “Pretinhas”. Sem dúvida, algo que não termina ao fim da leitura.

Link para o conto: https://www.wattpad.com/77281926-a-carta

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