ARTIGO — Da flaubertização de parágrafos

Diz-se por aí que Flaubert era um maníaco perfeccionista; passava horas (com ou sem hiperbolismo, jamais saberemos) revisando seus parágrafos, e não ia para o seguinte enquanto aquele em que trabalhava não estivesse o mais próximo possível do que ele considerava perfeito.

Quando li isso, foi como se me dessem um abraço. Melhor: foi como se Flaubert me desse um abraço. Em um ambiente no qual me dirigem sempre a mesma dica – “jogue tudo no papel, depois lapide” – me sentia solitária, improdutiva, cismada, ansiosa por ser incapaz de seguir adiante sabendo que aquela frase horrorosamente composta está ali, no meu parágrafo, e que mais tarde tornarei a ela porque sei que ela é horrível. Por que não ajeitar agora? Por que não interromper a vomitação do texto para deixar tudo bonitinho, e dar continuidade com a consciência tranquila? Não é muito mais prazeroso?

Diziam, ainda, que por essa mania Flaubert levava muitíssimo mais tempo que seus companheiros (de época? De ofício?) para terminar um livro, um texto, um epitáfio. As justificativas dos que bradam “escreva primeiro, ajeite depois”, com seus cartazes escritos em letras vermelhas, capitulares, quase ameaçadoras, são as mesmas: “assim você trava sua produção”, “assim você não termina nunca”, “assim você só vai escrever um livro a cada 20 anos”.

É verdade. Eu demoro cerca de 6 horas (marcadas) para escrever menos de mil palavras. Ontem mesmo, tirei a noite para trabalhar em um texto, das 21:00 à meia-noite, e embora já estivesse certa do que ia colocar, e como, escrevi não mais que 200 palavras.

A questão é que esse método (carinhosamente, e criativamente, apelidado por mim de “flaubertizar”) é a maior parte do prazer de se fazer Literatura. Saborear individualmente cada palavra, lustrar os parágrafos como se fosse prataria, demorar-se no que se quer dizer, avaliar se há algo melhor a ser dito, e dizê-lo de modo a expressar exatamente (ou perto o bastante) da forma como foi pensado. E isso no rascunho, na segunda versão, na terceira, na quarta, na quinta… O casamento entre conteúdo é forma é o único que eu aprovo. Divorciá-los seria de uma crueldade imensa. Além do mais, acostuma o cérebro a pensar através das palavras, não só das imagens.

Isso, segundo moi, é claro, é imergir no texto. É imergir nas sensações. É imergir em si. Um texto escrito “de qualquer jeito” para “ser arrumado depois” é um texto pobre. Pode ser enriquecido nessa segunda visita – como quando nos mudamos e a princípio não há a preocupação de pôr tudo no lugar, mas depois reorganizamos de acordo com nossas intenções. Não significa que quem siga esse método é mau escritor. Contudo, eu acredito que o esmero de Flaubert reflita o simplório prazer de estudar cada combinação de palavras para tecer, da melhor forma, uma história, como testar as tintas numa paleta para encontrar o melhor tom, e só então passá-lo ao quadro.

A ironia reside no fato de que Flaubert podia não fazer nada disso. E basta essa dúvida para refutar meus argumentos…

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