ARTIGO — Por que eu ainda procuro editoras

A primeira coisa que eu aprendi quando resolvi que seria escritora, lá nos primórdios de minha adolescência, foi que eu precisava arrumar logo um marido rico e velho, ou ganhar na Mega-Sena (ou arrumar um emprego decente, mas essa possibilidade é a mais remota).

Escrever e ganhar dinheiro são realidades tão dicotômicas que, presumo, deve haver alguma regra gramatical a respeito de nunca usar os dois termos na mesma frase.

Não, não estou considerando as exceções. J.K. Rowling tem dinheiro pra comprar a Inglaterra, mas enquanto Harry Potter era fecundado, sua realidade não era muito diferente da maioria dos autores. E, sejamos realistas, ninguém aqui (nem eu, que escrevo esse texto, nem você, que o lê) vai escrever o novo Harry Potter.

Sem drama.

Não vamos.

Conformados? Pois bem.

Ninguém vive a vida contando com a sorte (assim só me resta o marido rico…), mas ser o best-seller do ano — ou mesmo o do mês — depende mais disso do que de um autor talentoso. Ser o carro-chefe do mercado literário é tirar o bilhete premiado.

Tem bem mais a ver com estar no lugar certo na hora certa do que com uma boa escrita.

Então por que, diabos, eu que já decidi que não quero me frustrar com a condição de escrever para o mercado, eu que me recuso a desembolsar uns bons trocados só para ter meus livros na livraria na esperança de alguém vê-lo e decidir que sou o messias da literatura contemporânea, eu que já me desliguei do romantismo dos lançamentos, autógrafos e fãs (céus, escritor tem fã!), e que estou em paz com a ideia de não conseguir nem comprar um bolinho Ana Maria com o feedback da Amazon, por que eu continuo atrás de uma editora?!

Sendo sincera comigo mesma (meu psicólogo ficaria orgulhoso): porque dez likes no Facebook não bastam.

Sempre defendi a livre disseminação da arte, isto é, posto tudo que é meu de graça. Não que eu tenha muita coisa pra postar (tenho bem pouca, na verdade), mas não me ofende a ideia de que me leiam (trigger warning: frase presunçosa) sem pagar pela minha arte. É para isso que eu escrevo, é para isso que eu exponho o que escrevo, para tão somente ser lida.

Consideremos o dia em que eu consiga fechar um contrato com uma editora: meu livro será vendido, e eu ficarei na torcida para que seja pirateado. Mais PDFs rolando soltos na obscuridade da internet, mais gente lendo. Os dez centavos que eu ganho em cima de uma “publicação oficial” (leia-se, por uma editora de grande porte) são bônus.

O sucesso com uma publicação independente está associado ao barulho. Quem grita mais alto no mercado de peixe é recompensado com atenção. Há quem nasça com uma inclinação natural para isso (Deus abençoe as cordas vocais potentes), há quem precise tacar o peixe na cabeça do cliente para conseguir ser visto, e há quem, como eu, sequer saiba segurar o peixe.

Costumo dizer que se alguém precisar de mim para fazer marketing, é melhor esperar a concorrência me contratar.

Sofro de um pouco de tudo: preguiça, pouco conhecimento mercadológico, rebeldia infantil, ego inflado.

Temo, até, os concursos que premiam em dinheiro a ser convertido para publicação por parte do autor. Eu não saberia o que fazer com 20 mil (torraria em Paris). Alguém precisa lidar com esse monstro da burocracia para mim.

Minha escrita não é primorosa. Minha escrita não se vende sozinha. Minha escrita é um linguado e eu sei que algumas pessoas gostam de linguado, mas quais?

Procuro editoras na esperança de identificá-las, na esperança de chegar até elas e na esperança de que elas chamem seus amigos para jantar.

O pescador recebe pouco, eu sei.

O dinheiro não me preocupa. Eu aceito viver de recadinhos.

Foda é saber que, na ânsia do desabafo (e da atenção), eu posso muito bem ter pisoteado meu linguado com esse texto…

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