ARTIGO — Saramago Superstar

Não sei dizer quando ser escritor se tornou tão legal.

É bem verdade que o ofício carrega certo status. “Sou escritor”, e o interlocutor responde com um misto de admiração e pena. Te tem por excluído e genial.

Mas a admiração tá lá.

Só que hoje escritor tem fã. Não mais um séquito de indivíduos dispostos a provar por A + B que fulano disseca a sociedade como se as palavras fossem um bisturi, e sim um conglomerado de gente histérica que não admite haver, nesse mundão cibernético, quem não considere seu ídolo um bom autor.

Herança da cultura pop? Talvez. É difícil determinar sem cair em non sequitur.

Observa-se, no entanto, jovens ensandecidos querendo se tornar “o novo Stephen King”, “o novo Tolkien”, “a nova J. K. Rowling”, “o novo John Green”, “o novo George R. R. Martin”.

Curiosamente, todos autores massificados.

Ruins? Não.

Se formos estabelecer um parâmetro com toda a vastíssima gama de adeptos da sexta arte, contudo, tampouco são tão admiráveis quanto o seleto grupo que ninguém ousa tentar reproduzir — ou se comparar a.

A cultura pop é um movimento que atinge, essencialmente, jovens. Acostumados a gritar e sacudir os braços para as estrelas da música e de Hollywood, naturalmente transferiram o comportamento para aqueles escritores que cobrem um público semelhante.

Sem entrar nos méritos de qualidade literária, há quem se gabe e se alimente desse surto, e quem aspire uma carreira no ramo da escrita tão somente para ter uma arroba de fã-clube no Twitter.

Escrever não é chique.

Escrever é pop.

Evito categorizar o escritor como um cara que arrota intelectualidade. Nem sempre; um escritor pode, tão somente, mascarar sua ignorância de forma sublime. Quem não consegue fazer nem isso ainda, é aspirante.

Não é à toa que a Literatura reside entre as duas artes que mais dependem da mentira: o Teatro e o Cinema. Um bom escritor talvez seja um ator que dispensa o palco. Um forjador da própria imagem.

Desse modo, é possível entender que o processo pelo qual estamos passando. A figura que outrora apresentava-se como intocável porque assim se idealizava, em parte quer ser, agora, tão acessível quanto possível.

E bastando ter um computador e um editor de texto para se nomear um autor, com a difusão de cada vez mais plataformas de publicação digital e uma massa leitora pouco exigente, isso está ao alcance de qualquer um.

Só que não é tão legal assim, logo se vê.

Se eu pudesse deixar um conselho para quem quer ser um escritor, seria: desista.

Não é bonito. Não é romântico. É frustrante.

Diria, até, que a única parte legal de ser escritor é poder se colocar no mesmo grupo do Saramago.

“Sou escritor, o Saramago também.”

É… Talvez seja isso…

Esqueçam esse texto. Todos os escritores o são pelos aplausos dirigidos a outros escritores.

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