ARTIGO — Lo-Li-Ta

lolis

Aprendi a ler e a escrever aos treze anos. Meus pais guardavam os “livros adultos” em um armário, mas meu acesso a eles não era restrito. Na verdade, até o estimulavam, não obstante o alerta: “a maioria você não vai entender agora.” Eu ignorava. Queria lê-los. Sabia, já então, que havia algo ali à minha espera, algo que eu não encontrava na biblioteca da escola, mesmo quando, furtivamente, ia atrás daqueles marcados pela bolota azul.

Era um azul-bebê, nada opressivo, apenas intimidante. Os dizeres da legenda de catalogação ecoavam em minha cabeça oca: “dezesseis anos”. Eu sequer ousava chegar perto da seção das bolotas pretas. Aquelas páginas sórdidas me assustavam quase tanto quanto despertavam minha curiosidade. Deixava aqueles volumes quietos, porque eu não iria entendê-los; queria, mas não iria. Os de faixa azul eu ainda tentava. Arriscava levá-los para a bibliotecária, com olhar pedinte. “Por favor.” Após alguns fracassos, passei a lê-los escondidos, lá mesmo, durante o recreio. Assim constatei que o que estava na minha faixa etária era, pra mim, à época, enfadonho.

Do armário de meus pais, puxava os títulos que me pareciam apropriados para aquele estado de espírito pseudo-subversivo. Assim li “O Incêndio de Tróia” e boa parte de nossa coleção do Dean Koontz. O primeiro segue como um dos meus favoritos até hoje, e foi essa euforia pós-descoberta de uma história impactante que me voltei para todos aqueles títulos com anseios que só posso descrever como “de espírito”. Não era uma necessidade adolescente, intelectual. Isso tudo é superficial demais. Eu sabia o que queria encontrar, mas não sabia onde. Com sorte sou preguiçosa; apesar do afã, evitei ler o armário todo.

Aos treze eu também aprendi sobre sexualidade, isto é, ampliei a visão que tinha dela. Devo-o aos livros cujas capas eu escondia de quem quer que estivesse na biblioteca junto de mim, no entanto um vértice desse espectro, em especial, é mérito da internet. Vértice porque há coisas que todos sabem meio que de natureza, essas são medianas, comuns; o problema é ensinar o que se destaca pela excentricidade — digamos, pois, os fetiches.

A palavra estava associada à minha banda número um. Ela e seu sinônimo, um tanto menos agressivo. Ninfeta. Porque tinha considerável obsessão pela mitologia grega, eu reconheci a etimologia. Ninfeta. Não era aconselhável jogar o termo no Google então, não é aconselhável agora. Ninfeta, uma menina que incita o desejo sexual (sic). Ninfeta, um item obscuro no catálogo erótico. Lembro de me sentir culpada por gostar daquela banda. Lembro de me sentir culpada por pesquisar “ninfeta”. Lembro de me sentir culpada ao inteirar-me de que o termo é um neologismo criado por um conterrâneo das integrantes de dita banda. Lembro de me sentir culpada por querer ler o livro que o originou. Certamente era um de bolota preta.

Não falei com minha mãe. Não falei com meu pai. Deixei pra lá. Quando eu crescesse, o leria. Este e outros muitos. Mas dizem que Deus atua nas coincidências, e sou suficientemente cética para atribui-lo tanto ao destino quanto ao acaso.

Costumava ir ao armário de manhã, logo após ou durante o café, a fim de já colocar o livro dentro da mochila como precaução para as aulas chatas; o armário possuía três prateleiras, e os livros espremiam-se ali dentro em duas fileiras, os mais altos servindo de apoio para aqueles que não cabiam na vertical. Alcançar os que se isolavam atrás e debaixo duma cacetada de títulos interessantes o bastante para corroborar minha preguiça de vasculhar além era chato e trabalhoso. Um dia, é claro, eu haveria de fazê-lo, movida por uma força maior/um ataque de tédio/uma saturação de leituras de mesmo gênero, o que for mais adequado às suas crenças. Aconteceu, se bem me recordo, um pouco antes dos catorze. Sob pesadas e antigas edições de clássicos do Victor Hugo, muito bem conservado, apesar de meio antigo, havia o que, a priori, parecia um livreto. Catei-o.

A capa é azul-bebê, minimalista, contendo o título, o autor e uma fotinha quadrada, em preto e branco, de perninhas juvenis metidas num uniforme colegial. Azul-bebê como as bolotas-dezesseis-anos, com letras em fonte usual, pretas e médias.

Lolita.

Folhas brancas, endurecidas pela falta de uso, caracteres miúdos para espremer, em duzentas e algumas páginas, uma história escrita em quatrocentas.

Lolita, de Vladimir Nabokov.

O que eu senti ao abri-lo pela primeira vez é, até hoje, inefável. Um pouco de medo de ser flagrada lendo tamanha depravação; um pouco de orgulho por tê-lo aberto; alívio por saber que o possuía, e não precisaria me submeter à vergonha de expressar que queria lê-lo, fosse aos meus pais, fosse ao livreiro; encantamento; expectativa; familiaridade.

Imagino — se me permitem um tom ainda mais dramático — que assim tenham se sentido os hebreus quando chegaram a Canaã. Li o relato de Humbert Humbert pela primeira vez de tal modo fascinada que absorvi muito pouco, confesso. Viria a lê-lo quatro vezes mais, em diferentes etapas de minha vida até agora; todas, de certo modo, trouxeram algo novo à tona, e muito embora esteja sujeita a apreciá-lo mais a cada leitura, muito pouco tenho a dizer sobre estas em comparação com a primeira. Maldita seja a maturidade, a sexta vez, é certo, gerará um levante muito mais técnico que subjetivo.

A Anna Carolina de treze anos, por outro lado, dividida entre o que tinha para si de ninfeta e aquilo — também inefável — , ficou confusa ao terminá-lo, oscilando entre a orfandade, estado que apenas essas literaturas arrebatadoras propiciam, e o êxtase.

A Anna Carolina de treze anos, ao terminá-lo, estava catatônica. Sentia-se como a Anna Carolina de quatro anos, que aprendia a juntar as sílabas. Não mais a simplicidade das coisas palpáveis — car-ro, bo-ne-ca, ca-ne-ta, a-mi-go — , agora aprendia das coisas intangíveis.

Lo. Li. Ta.

O que vinha de antes era básico. Como o bebê que emite sons seguro de suas intenções, mas sem a capacidade de elaborar sua fala. Já àqueles tempos eu tinha a certeza de que queria ser escritora, mas foi Nabokov quem me ensinou a escrever.

Já àqueles tempos eu absorvia o que estava no papel, interpretava o que estava à minha frente, mas foi Lolita quem me ensinou a ler.

E até hoje, quando vejo colegas temendo palavras como eu temia “ninfeta”, duvidosos a respeito das narrativas que provocam um conflito entre o apreciável e o condenável, eu torço para que também eles encontrem seus livros de capa azul-bebê escondidos entre aqueles que tomam como literatura adequada. Torço para que se aventurem pelas seções de bolotas pretas, como vim a me aventurar acompanhada de Dolores Haze. Não pela subversão, mas pelo prazer de querer confrontar o que nos inibe, como autores e leitores, e pela necessidade do espírito.

Estou certa de que nunca encontrarei outra Lolita. Porque as Lolitas só surgem uma vez — e Humbert pode atestá-lo, embora por razões bem menos nobres. Mas tampouco se vão. As Lolitas ficam, como luzes e labaredas, na alma, na lama. Especialmente se descobertas com a ingenuidade de quem ainda está aprendendo a dizer Lo-Li-Ta.

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