ARTIGO — De escritores e cozinheiros

Eu gosto muito de cozinhar. É uma atividade que me relaxa, especialmente se eu não tiver que lavar a louça depois. Não tenho pretensões maiores que fazer refeições gostosas para mim e para minha família, ou meus amigos. É o tipo de atividade bem altruísta. Quem curte cozinhar curte ver os outros saboreando seus pratos. Mesmo que sejam simples. Mesmo que seja um miojo — a satisfação do outro é quase tão grande quanto a sua.

Por isso uso os melhores ingredientes possíveis dentro do que estou disposta a fazer. Hoje, por exemplo, diante da necessidade de cozinhar um quebra-galho, preparei o infalível macarrão-com-molho-de-tomate. Ou quase. Diante da escassez de tomates em minha geladeira, e porque eu esqueci de comprar o molho semi-pronto, minha alternativa em 90% das vezes, tive que recorrer ao ketchup.

Triste, eu sei. Me incomodou o suficiente para que pedisse desculpas ao servi-lo.

É sabido que chef algum recorre a ketchup, ou mesmo ao molho pré-refogado. São chefs. Espera-se deles que façam molhos de tomate com tomates. Frescos. Bem temperados. Leves.

Estabelecemos, pois, uma linha hierárquica: chefs — cozinheiros — paneleiros (porque não encontrei outro termo). Os chefs lidam com ingredientes primários, ou seja, vão direto à fonte; os cozinheiros recorrem ao que não dá tanto trabalho, mas é passível de personalização; os paneleiros usam industrializados, prezando mais pela praticidade que pelo sabor.

Isso é perfeitamente aplicável também na escrita.

Porque as distinções são subjetivas, não entremos no espectro da arte. Tratemos os livros por bons, medianos e ruins — e seus autores, de mesmo modo, por autores bons, medianos e ruins.

A modo dos chefs, os bons autores utilizam-se de elementos primários para criar suas obras. Isto é dizer que eles vão à fonte que produz as obras de seu gênero. A originalidade, a contrário do que tem-se por aí como definição, não é algo “nunca feito antes”. A originalidade é o tomate e como o autor o trabalha. Quais os temperos utilizados. Quais os sabores que ele busca realçar.

Um chef não necessariamente planta os tomates, mas usufrui deles a seu modo. O autor bom estuda o que os autores que o inspiraram estudaram. Alguém que admire o Umberto Eco, por exemplo, se algum dia lhe ocorrer escrever algo na linha d’O Nome da Rosa, irá atrás de iluminuras, de documentos da Igreja, de estudos sobre o período medieval. O autor mediano, que corresponde, nessa linha de raciocínio, ao cozinheiro, está aquém no sentido de que ele não vai às fontes, ele vai ao que já foi produzido para então modificá-lo.

Seria, num exemplo mais prático, ir atrás de “A Insustentável Leveza do Ser” para alterar a linha narrativa de Milan Kundera, em vez de estudar o eterno retorno de Nietzsche ou as filosofias referentes ao amor. Seria ler “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” para moldar, baseando-se em Saramago, um “Evangelho Segundo Maria” ,em vez de ir à Bíblia.

Mas se o cozinheiro ainda preza o bastante por sua obra para se preocupar em ir atrás de alguma coisa, e ainda tem o senso crítico de experimentar o que funciona e o que não funciona dentro de suas ideias, o paneleiro, o escritor ruim, reproduz as obras sem incumbir-lhes personalidade.

Em lugar de estudar a Literatura que o inspira, ou as fontes que inspiraram aquela Literatura, ele transfere sua essência para uma história que será acrescida de complementos, e não ingredientes. Se o paneleiro espirra ketchup no macarrão e o chama “macarrão com molho”, o escritor ruim importa material de outras obras, mistura tudo e apresenta a história como sua.

Este não preza por aqueles que se alimentarão do que ele produziu. Ele só quer que comam o que ele fez.

E por mais clichê que seja dizê-lo, é o amor pelo que se está cozinhando, no fim das contas, que diferencia uns de outros. Os paneleiros apenas forrarão o estômago — quiçá, com muita boa vontade, terminaremos seu prato; seus livros serão travestidos de refeições, mas os expurgaremos tão logo feita a digestão.

O autor que preza pelo seu leitor, que preza pelo que ele irá sentir ao consumir sua obra, mesmo que minimamente, no entanto, está a um passo de se tornar uma figura que vale a pena ser lida. Resta-lhe se dedicar para que esse intuito se traduza no que for servido.

E os autores bons, como os chefs, embora a princípio pareçam servir a um público restrito, têm seu esforço reconhecido de tal modo que os outros dois talvez nunca conheçam: quando o efeito do que produzem é prolongado a um prazer que só parece exprimível por interjeições.

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