RESENHA — Carol, Todd Haynes

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 5/5

Discorri longamente sobre o livro que deu origem a “Carol” aqui. Ainda assim julgo necessário escrever um artigo só para o filme, muito embora pouco reste para dizer a respeito da história. Trata-se de um caso em que a cinematografia fez toda a diferença e distanciou completamente as duas experiências – ambas excepcionalmente positivas -, o que mostra não só o poder da perspectiva sobre uma narrativa que foca na desconstrução de um personagem, como também a complementaridade das quinta e sétima artes. Se por um lado Patricia Highsmith escreveu uma obra doce e impactante sobre uma jovem se descobrindo através da paixão por uma mulher mais velha, o trio Todd Haynes-Phyllis Nagy-Ed Lachman reconstruiu o romance através dos contrastes, dando mais solidez a Carol, sem, contudo, abrir mão do torpor em que se encontrava Therese. O resultado disso é um filme que passeia por cenas carregadas de distorções oníricas, sentimentos que se estendem ao espectador por meio da trilha sonora e, claro, duas exímias performances que se chocam ao mesmo tempo em se equilibram.

Mas não ponhamos a carroça à frente dos bois. Vamos à sinopse:

A jovem Therese Belivet (Rooney Mara) tem um emprego entediante na seção de brinquedos de uma loja de departamentos. Um dia, ela conhece a elegante Carol Aird (Cate Blanchett), uma cliente que busca um presente de Natal para a sua filha. Carol, que está se divorciando de Harge (Kyle Chandler), também não está contente com a sua vida. As duas se aproximam cada vez mais e, quando Harge a impede de passar o Natal com a filha, Carol convida Therese a fazer uma viagem pelos Estados Unidos.

Este ano, quando soube do lançamento de “Carol”, me comprometi a assistir todos os trabalhos de Todd Haynes para me familiarizar com seu mise-en-scène. Muito embora este filme esteja em sua zona de conforto – é seu terceiro trabalho retratando mulheres que sutilmente se rebelam contra a sociedade recatada em que estão inseridas, sendo “Far From Heaven” inclusive ambientado na mesma década, mas não no mesmo período – Todd aproveitou a abordagem centrada no romance que se desenrola “por baixo dos panos” para ousar um pouco mais no âmbito artístico. Colaborando novamente com Ed Lachman, diretor de fotografia de “Mildred Pierce”, ele trabalha o estilo introduzido na minissérie, repleto de cenas registadas através de vidraças, janelas e frestas de portas – afastando as personagens de seu entorno – e cores frias que traduzem o estado de espírito dos Estados Unidos naquele momento. O aspecto social, aliás, é um dos principais elementos para o desenrolar da história, que tem como cenário uma Nova Iorque em vias de recuperação no ano de 1952, e, por isso, caracterizada como altamente conservadora e frígida. Ou, quem sabe, confusa, esperando a oportunidade de desabrochar, como Therese.

tumblr_o00zbaly4v1v2aa5go1_540.jpg

Após a abertura que brinca com o ponto de vista do espectador ao apresentar a cena final sem um contexto que nos permita entender a razão de um encontro tenso entre as duas protagonistas, Todd nos faz acompanhar as elucubrações de Therese a caminho da festa de aniversário de um amigo. Assim, no táxi, sua expressão vaga é deformada pelas luzes noturnas da cidade, pelas gotas de chuva contra o vidro duma janela embaçada, e sua melancolia é traduzida por Carter Burwell, o compositor que também assina a OST de “Mildred Pierce”, numa peça lenta de piano. Logo em seguida imergimos, junto de Therese, no flashback que apresentará Carol, a altiva dona de casa para a qual vende, agora na forma de uma tímida, opaca atendente da seção de brinquedos da Frankenberg’s, um trenzinho elétrico.

Clichê como soa, as duas se sentem atraídas uma pela outra logo no primeiro olhar, trocado de cantos opostos da loja. E por reconhecer que se trata de uma situação que parece extraída de um conto de fadas, esse é o trato que Haynes dá à cena. Já então a dicotomia é visível: em faustosos e vivos trajes montados por Sandy Powell – que participou de outras duas produções de Todd, “Far From Heaven” e “Velvet Goldmine” -, Carol se apresenta como a predadora, a fera, e seus casacos de pele ajudam a reforçá-lo. Em verdade, parece prestes a dar o bote na frágil e basicamente vestida Therese, que usa tons mornos ou escuros, enquanto a outra está quase sempre de vermelho (símbolo clássico da paixão) e azul (harmonia).

carol_e780x420.jpg

Porém, ao longo do filme, vemos que Carol está longe de ter a estabilidade que se esforça para apresentar. Puxando um pouco para a análise  junguiana, Carol constrói uma Persona forte, incontestável e, à primeira vista, inabalável. Em razão disso, na primeira hora de filme, Therese assume um papel de agente reativo, isto é, apresenta-se, em cena, como a que constantemente responde, a que é estimulada, a que espera. Mas pouco a pouco, conforme é desinibida pela mulher por quem está encantada, Therese se torna mais ousada e contestadora. E é quando diante de uma pessoa que atravessa a barreira de sua Persona que Carol se vê obrigada a encarar sua Sombra.

A Sombra, em Jung, confronta a forma como o indivíduo se apresenta, ou seja, é o que ele esconde. No caso de Carol, trata-se de seu divórcio conturbado com Harge e a batalha pela custódia de Rindy, sua filhinha de quatro anos, que atinge um patamar delicado quando ele a acusa de imoralidade em função de sua sexualidade.

Desse modo, a oposição é constante, tanto pela distribuição, em cena, das atrizes, que não raramente se encontram de frente uma para a outra, separadas por uma mesa ou por espaços impreenchíveis, uma distância que ao mesmo tempo parece ridiculamente curta e desesperadoramente intransponível dados os melindres da época, quanto pelos instrumentos escolhidos por Burwell para compor a trilha sonora, um violino suave e um piano imponente, pelos tons de voz das personagens, por suas classes sociais e pela maturidade de cada uma.

rooney.png

E por ser um filme que se alimenta dessa barreira entre as duas, que não é visível, mas está ali, palpável (quando saem de viagem, por exemplo, é comum que dividam uma suíte, mas durmam em camas de solteiro, o que endossa o simbolismo desse afastamento), a atuação silenciosa de Rooney Mara e Cate Blanchett remete à Hollywood clássica, calcada em gestos sutis e carregados de emoção. Para não dizer que passou batido, os comentários a respeito de Rooney Mara lembrar uma jovem Audrey Hepburn são especialmente verdadeiros se pensarmos em “The Children’s Hour”, filme estrelado por Audrey e Shirley MacLaine, que da mesma forma aborda um amor proibido entre duas mulheres, retaliado pela sociedade e construído através da distância imposta que as personagens não têm coragem de atravessar.

Mas no caso de “Carol” e “O Preço do Sal”, esse receio não é o bastante para impedir um relacionamento. Quando finalmente comungam da cama e de seus desejos, numa cena que retoma a fantasia e o torpor, o encanto de Therese e a incapacidade de Carol de resistir aos seus sentimentos, é como se o mundo parecesse menos hostil e a vida, mais simples.

Essa sensação dura pouco, pois Carol descobre que Harge contratou um detetive para segui-la durante a viagem, e as provas a respeito de sua relação com Therese irão proibi-la de ter contato com a filha. Obrigada a escolher entre esta e Therese, Carol decide se afastar, e é livre da figura dominante, mas ainda profundamente influenciada por ela, que Therese se transforma em uma mulher elegante e impositiva. Quando novamente juntas, em um dos raríssimos finais felizes para histórias do tipo, especialmente nos anos 50, as personagens não mais parecem antagônicas, mas iguais, como se tivessem extraído da outra o que faltava em si.

Outra vez Todd nos serve de um olhar que cruza o ambiente turvado, móvel, transitório. Apenas Carol e Therese são permanentes. Apenas o amor que dividem é permanente. E Carter Burwell encerra com uma melodia que nada mais é do que a continuação da música de abertura. Da mesma forma que ocorreu com a obra literária, quando diante do fim desse conjunto de sentimentos que pouco a pouco nos atravessam sem que nos demos conta, é inevitável nos sentirmos renovados.

tumblr_nygygzGJvB1rj52pwo1_500.png

A fins de curiosidade, custou a Phyllis Nagy algo em torno de 15 anos para que seu roteiro fosse aprovado. Hoje o filme é um dos mais cotados ao Oscar de 2016 nas categorias de Melhor Filme, Melhor Atriz, Melhor Atriz Coadjuvante, fotografia, trilha sonora e Melhor Roteiro Adaptado. Apesar disso, apesar da considerável evolução do pensamento a respeito das relações homossexuais, marcadas, em especial, pela legalização do casamento gay em todo o território estadunidense mais cedo esse ano, ainda é possível estabelecer paralelos entre a situação enfrentada por Carol e Therese e pelos casais homossexuais de agora. E por isso o lançamento do filme teve um impacto proporcional ao do livro, há 63 anos.

Ambos nos confortam com a esperança em contraste às adversidades.

Anúncios

Um comentário sobre “RESENHA — Carol, Todd Haynes

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s