RESENHA — Alma Menina, de Camila Silvestre

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 4,5/5

Em seu primeiro livro, Camila Silvestre se propõe a cruzar fronteiras. Como o viajante que não sabe direito qual será seu próximo destino, atravessa, com cuidado e determinação, os meandros de sua obra na pele de uma personagem cuja alma livre está presa no corpo de uma jovem letargiada pela vidinha extremamente simplória que leva no interior de São Paulo. Isso resulta em um livro que mistura o romance com contos, realismo com fantasia, autora e obra, leitor e personagem, rompendo todas as barreiras que possam se interpor entre um e outro, formando uma realidade tão própria e, ao mesmo tempo, tão universal que deixa a sensação de, quando concluído, termos experimentado uma jornada para muito além do que nossa mente pode alcançar.

A sensibilidade ao traduzir uma situação comum de forma tão particular é a maior qualidade da Camila, como autora. “Alma Menina” é um livro metonímico, isto é, ao falar de Mari, fala por todos os que já se encontraram na delicada situação de ter a vida aparentemente arranjada, mas ansiar por outra coisa – algo que não se sabe, ao certo, o que é. E ao se colocar como a personagem, utilizando-se da narrativa em primeira pessoa, mas tomando o cuidado de conceder-lhe sua singularidade, sem torná-la uma reprodução de si própria, oferece, também, o conforto da compreensão e da confidência – uma amiga que desabafa a respeito das perturbações de sua vida.

alma menina

Da mesma forma, embora, a princípio, pareça um livro voltado exclusivamente ao público feminino, a apresentação do caos silencioso em que Mari se encontra, abafado pela sensação de dívida que tem para com seus pais e todos ao seu redor, deixa claro que não se trata de algo exclusivo de jovens moças prestes a ingressar na fase adulta. É algo comum a qualquer pessoa que esteja prestes a sair de sua zona de conforto. Quando descreve a maior rebeldia de sua personagem como sendo a escolha de sua própria faculdade, Camila traz à tona a insegurança diante de um futuro moldável, o medo de trocar sua rotina soporífera pela incansabilidade das novas oportunidades, a pressão social por uma carreira rentável, embora aborrecida, a necessidade de encontrar alguém que apazigue nossa solidão e a busca pela garantia de que, no final, ficará tudo bem – tudo isso é inegavelmente próximo e atemporal. E quando Mari dá o primeiro passo em direção ao que acredita ser o melhor caminho, sua saída do cárcere de incertezas, é surpreendida por uma série de eventos que colocam em xeque sua decisão, levando-a, como escreve a autora, à beira de um precipício.

O ambiente de confusão que Camila escolhe para sua protagonista é a casa dos tios, onde Mari passa a viver ao lado deles e de suas primas. Aqui ela explora o otimismo inicial de quem acaba de ser inserido num ambiente de inúmeras possibilidades, apresentando-o primeiro como um universo acolhedor, estimulante, para depois, pouco a pouco, como quem derruba as colunas de sustentamento dessa nova vida, extrair seus alicerces ao corromper, de diversas formas, as figuras que passaram a ser suas companheiras. Em cada uma delas é projetado um medo de Mari, realizando-se fria e cruelmente, sem tempo para reagir. E ao perceber que suas expectativas e planos e conjecturas são absurdamente frágeis, e que essa fragilidade independe de uma mera mudança de ambiente, isto é, está muito além de seu controle, Mari se perde em seus pensamentos mais nocivos.

Minha primeira vontade era gritar, gritar alto e incessantemente, até que alguém notasse que eu precisava de ajuda. Depois essa vontade passou, e só sobrou o desejo latente de me trancar no meu antigo quarto e lá ficar, para sempre.

E se comumente é atribuído ao gênero um tom de condescendência quando lidando com o desespero, ou um melodrama excessivo que pouco faz jus à realidade de quem se encontra nesse estado, Camila não escorrega em nenhum dos dois. Em lugar, inova: apela para o aspecto onírico, sobrenatural e fantástico de seus contos a fim de expôr o estado emocional de Mari de tal modo que nos sintamos exatamente como ela. O objetivo é alcançado de forma excepcional, pois sua criatividade e perspicácia na hora de elaborar metáforas e cenários simbólicos geram, no leitor, um reconhecimento rápido, haja visto que, embora complexos, os contos são complementares às condições já profundamente exploradas pela autora e pela personagem, além de estimular elucubrações para além da concretude da realidade de Mari, valendo-se de elementos condizentes com seu estado de espírito, que varia do deslumbramento ao descontrole e à súplica pela salvação.

Esta se apresenta na forma de um homem misterioso, por quem Mari desenvolve uma afeição súbita, que lhe apresenta um mundo até então desconhecido onde ela é responsável por si e por sua felicidade, apenas. Nessa parte da história, Camila assume um tom mais leve, elucubrativo e esperançoso, conectando as duas personagens – a Mari repleta de melindres, enclausurada por suas limitações autoimpostas, e a Mari que dá vazão a à ânsia incontrolável de ser alguém, de fazer algo grandioso, de conquistar – sem cair na armadilha do toque de Midas, ou seja, sem tornar esta Mari uma versão antagônica da anterior, subitamente inserida num mundo renovado pela mera força do pensamento, e sim apenas melhorada, injetada de autoestima, o que normalmente acontece quando conhecemos alguém ou nos deparamos com algo estimulante.

E Sérgio, a figura que ora se apresenta como incontestavelmente real, ora faz com que nos perguntemos se é possível que exista alguém assim, é uma extensão tanto do poder exercido por alguém que amamos, e que nos ama, quanto pela escrita de Camila em “Alma Menina”. Ao fim da leitura, nossa conexão com a protagonista e com a autora é tanta que deixa a impressão de que não apenas lemos um relato íntimo e transcendental, mas testemunhamos cada momento na vida de Mari.

Camila possui, e digo-o por já ter lido, também, alguns de seus contos, uma habilidade rara de recriar o que conhecemos. Sua escrita é provocativa, ao mesmo tempo em que se propõe, ao tratar de temas comuns, contemporâneos, familiares ao leitor, a apaziguar as tensões de quem busca, na Literatura, alguma elucidação. Não raramente ela investe na tenuidade do lugar-comum e do irreal, contornando os clichês e os exageros, fazendo-nos explorar caminhos novos e, mais que isso, nos guiando por eles, despertando nosso senso de mudança e redesenhando (ou melhor, reescrevendo) o mundo ao nosso redor.

Indubitavelmente, uma figura que injeta esperança no futuro controverso de nossa Literatura.

 

Para saber mais sobre Camila e “Alma Menina”, acesse seu site ou seu perfil no Wattpad .

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