CRÔNICA — São Paulo, s.f.:

Poucas foram as vezes em que ultrapassei os 90 km que separam Teresópolis do Rio de Janeiro. Raramente visito a capital. Tenho melindres com as grandes cidades. Não há nada mais assustador que as possibilidades infinitas. Quando o faço, e quando vou além, é buscando enervar as partes letargiadas pela vidinha bucólica que levo na serra, ou atrás de nova paz, uma que já não encontro aqui, e neste caso meu destino não pode, de forma alguma, ser simplório.

Escolhi São Paulo, ou São Paulo me escolheu (embora seja difícil acreditar nisso. O que uma cidade tão magnânima poderia querer com alguém que sequer sabe se equilibrar no metrô?). Minhas expectativas eram baixas e associadas ao medo crônico de ser engolida. São Paulo, essa baleia azul; eu, um krill. As primeiras quatro horas que nos separavam foram gastas numa posição só: testa contra o vidro de uma janela que eu não sabia abrir, pernas esticadas, ocupando os pouquíssimos metros entre um banco e outro, braços cruzados apertando a bolsa contra a barriga, fones encaixados de tal modo nas orelhas que parecem uma extensão delas, as costas tão erroneamente quanto possível apoiadas na poltrona. O saldo disso tudo foi uma dor incômoda na lombar, nos joelhos e no pescoço quando o ônibus fez sua parada em Resende e me tirou do pseudo-transe em que me encontrava.

Viajei à noite,  mais por falta de opção que vontade  — contudo, houvessem alternativas, provavelmente a escolheria, de todo modo  —, e à noite tudo é um esboço. A paisagem é mancha de nanquim contra papel negro. Deduzo que havia árvores, e casolas perdidas, e vendinhas à beira da estrada, e desvios ignorados, e tantos outros mundinhos que dispensamos em prol de um, apenas por uma familiaridade vaga, um desejo de ser bem recebidos — o que, supomos, não aconteceria se por distração ou rebeldia virássemos uma direita qualquer. Entre Teresópolis e São Paulo há dezenas de outras cidades, uma caralhada de chão asfaltado, milhares e milhares e milhares de pessoas que serão abstratas até que se pare para pensar nelas — o que não acontecerá com frequência, porque é desesperador. Considere apenas que são anos e anos e anos de gente pavimentando caminho pra você, e que tudo o que deixamos para trás está ali porque alguém o colocou ali, e que “alguém”, neste caso, não faz jus a uma vaguidão particular, e sim a um conjuntivo — trata-se de um número tão grande de gente envolvida que é mais fácil singularizar. E, de mesmo modo, como se cada uma fosse um universo criado por seu Deus particular, e todas as edificações surgissem assim, pela vontade divina, sem que se questionasse a necessidade de sua existência, as cidades parecem sempre ter estado em seus devidos lugares, ocupando os vazios impreenchíveis por qualquer outra coisa que não conglomerados de pedra empilhada.

Inevitável se sentir pequeno.

Conforme essas elucubrações tentavam, inutilmente, dar forma ao que se escondia no breu, adormeci.

São Paulo despertou-me com delicadeza. O céu nublado e o frio usual das primeiras horas da manhã em muito me lembravam a terra que abandonei nas montanhas. Alguma letargia me mostrou que não se tratava de uma criatura incansável, e que também as metrópoles precisam repor as energias. Mais que isso: se tratava de uma criatura absurdamente gentil, cujo exoesqueleto cinzento serve para proteger uma série de casolas coloridas, a autenticidade dos que estão protegidos pelas multidões e os sonhadores.

Em verdade, uma jerusalém, onde a natureza brota da pedra, a terra busca se fundir ao céu, a gravata e a chinela se sucedem nas filas, a vila romana tem padaria francesa, o carioca é gringo e morador também é turista. Das paredes azuis que são interrompidas pelo verde gritante, dos muros pintados com estampa, das pichações educativas, o vandalismo que busca consertar, aos andares que ora são dois, ora são oito, ora são vinte, São Paulo exala sincretismo e espalha-o, a modos de um perfume forte com combinações delicadas, por quem a atravesse.

Sua arquitetura subverte a padronização por meio de detalhes que tanto podem gritar à sua fuça quanto acenar timidamente. De qualquer janela vê-se os quilômetros horizontais e verticais, e quilômetros dentro desses quilômetros, e gente dentro desses quilômetros, uma infinidade de mundos e culturas que se unem em base de limites que parecem não existir, mas ainda assim reconhecidos. Porque embora a travessia por esse amálgama se dê forma fluída, imperceptível até que as singularidades atentem para a transição, seus lotes são bem definidos em função de quem os ocupa. A exemplo dos rumos percorridos pelos meus pensamentos ao longo da viagem, São Paulo, de início, era edifícios, rodovias, urbanidade. Mas São Paulo, na verdade, é gente. Muita gente.

É gente que quer ascender até onde a vista alcança. É gente que quer o oito e o oitenta. É gente que agrupa. É gente fixa. É gente transitória. É gente que tem pressa, é gente que se arrasta, é gente que sequer levanta. É gente pragmática. É gente visionária. É gente espalhafatosa. É gente discreta. É gente vadia. É gente que grita, e que sussurra. É gente inquieta. Que se encolhe ao toque. Evasiva, muitas vezes. Mas compreensiva.

Se voltei para minha cidadela com algum souvenir, esse souvenir é o par de fotos que tomei — as únicas, uma às dez da manhã, quando me ajuntei à janela lamentando a partida, e outra às oito da noite, sorrindo de volta e murmurando um até breve. Dois instantes tão opostos quanto partir e chegar, que de tal forma misturam-se em mim, já não sei se voltei ou se fugi.

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