CONTO — Intimidade

INT

— Ou, Gustavo, tem uma barata ali.

— Mata.

— Não, porra, tô pelada, levanta aê.

— Tô ocupado.

— Larga de ser babaca.

— Tô ocupado, caralho.

— Ocupado com o quê?

— Com o meu pau, tô me masturbando.

— Ah, vai se foder, levanta e mata logo essa vagabunda!

— Deixa eu gozar.

— Ela vai sair do meu campo de visão.

— Tô quase, guenta aí.

— Essa porra vai voar, Gustavo, anda logo com isso! Tá rindo de quê?

— Essa porra vai voar.

— Não tem graça.

— Tem sim. Me distraiu, eu tava quase gozando.

— Então aproveita e levanta.

— Pera, tô pensando na Marília Pêra.

— Tu bate punheta pensando na Marília Pêra? Tu é doente?

— Pô, ela tava gostosona em Pixote.

— Ela tá morta, Gustavo!

— Mas eu não, e eu guardo boas lembranças do peito direito dela.

— Ó só, a barata sumiu!

— Aquilo ali sim era um digníssimo mamilo entumecido.

— A barata sumiu, Gustavo!

— Caralho, como cê aguenta ouvir sua própria voz há quarenta anos?!

— Cata a barata.

— Deve ter ido pra trás da cômoda, depois eu procuro, cala a boca e deixa eu terminar aqui.

— Aliás, nossa voz soa diferente pra gente, eu vi no Fantástico, eles fizeram uma matéria de vinte minutos sobre essa porra, tu viu também.

— Vi porra nenhuma.

— Claro que viu, era uma matéria sobre áudio no WhatsApp, eu te obriguei a ver.

— Eu estava pensando na Marília Pêra.

— Essa filha da puta deve estar na cortina.

— Marília Pêra comendo a Letícia Spiller.

— Que cê tá viajando aí, meu Deus?

— Letícia Spiller tá bem pra caralho, né?

— Mas que tem a Marília Pêra nisso tudo?

— Tô tentando gozar!

— Marília Pêra tem nada a ver com a Letícia Spiller!

— Meu gosto é amplo.

— Gustavo, se a barata estiver na cortina cê não vai achar ela nunca…

— Ela já deve ter ido embora, nem o catiço te aguenta.

— E se ela tiver subido na cama? Porra, Gustavo, e se esse bicho entrar na minha xota?

— Cê acabou de comparar tua xota a um esgoto, percebeu?

— Vai tomar no cu, Gustavo.

­— Ô, falando em rabo… Aquela bonitinha da novela das sete…

— Tu é nojento, a barata vai entrar na tua boca, isso sim, seu porco.

— Tu tinha a bundinha redondinha daquele jeito.

— Eu sempre fui gostosa pra caralho.

— Agora cê tá velha, toda pelancuda.

— E tu tá um gostosão, né? Alexandre Nero.

— Esse cara é um bosta.

— Tu que é um bosta, levanta e vai matar aquela enviada dos infernos.

— Pera que cê falou nesse palhaço e deprimiu meu pau.

— Eu fiz o quê?

— Deprimiu o meu pau.

— Como que eu me casei com você?

— Isso existe, olha no Google.

— Vou olhar porra nenhuma, agiliza isso aí.

— Tá quase. Tô na Adriana.

— Que Adriana?

— Qualquer Adriana.

— Como assim qualquer Adriana? Que Adriana, Gustavo?

— Toda Adriana é gostosa, porra.

— Tu tá pensando em todas as Adrianas ao mesmo tempo, seu filho da puta? Hein?

— Tá vindo…

— Tomara que broxe, seu desgraçado, pra deixar de ser babaca.

— A barata, ô, tá vindo!

 

A mulher dá um salto. Vai parar ao pé da cama.

 

— Tá vindo onde, infeliz? Onde é que ela tá?

— Foi mal, era só sombra.

— Seu filho da puta.

— Eu me enganei.

— Tu fez isso pra desviar da Adriana, né, seu corno?

— Já nem tô pensando na Adriana, mulher, volta pra cá, anda.

— Tu vai acabar com uma tendinite, não quer que eu ajude?

— Dá uma chupada.

— Nem fodendo, tu nunca nem passou da minha barriga!

— Então cala a boca.

— Eu vou é pegar o veneno e espirrar nessa merda desse quarto inteiro pra morrer você e barata, tudo junto.

 

A mulher sai do quarto e volta com um Raid.

 

— Cabô?

— Paolla Oliveira.

— Ô, essa até eu.

— Como é o nome da que ela comeu na novela?

— Não era novela, era minissérie.

— Tudo na Globo é novela.

— Era minissérie.

— Foda-se, qual o nome?

— Maria Cândido.

— Gozei.

— Na Maria Cândido?

— Não, cê falou Maria, eu lembrei de Marília.

— Como que tu goza com a Marília Pêra e não com a Paolla?

— Marília Pêra é um clássico.

— Me poupe.

— Paolla Oliveira é rock, Marília Pêra é blues.

— Já entendi.

— É tipo comparar Fellini e Woody Allen.

— Ok, Gustavo, agora me ajuda a achar esse bicho.

 

Gustavo se levanta. Os dois matam juntos a barata. Se deitam.

 

— Tu botou o despertador?

— Tô de folga.

— Ah é.

— Bora baixar Pixote amanhã?

— Tem na Netflix.

— Porra!

— Quê?

— E tu não me falou?!

— Tu quer ver Pixote a essa hora?

— Só as partes da Marília.

— Vai dormir, Gustavo.

— Eu teria gozado bem mais rápido.

— Boa noite.

— Ela merecia um Oscar.

— Até amanhã.

 

Ela apaga a luz do abajur.

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