POESIA — A Morte de Sylvia, por Anne Sexton

 

sexton

Anne Sexton

|A relação de Sylvia Plath e Anne Sexton era calcada no fascínio que ambas tinham pela autodestruição, expresso através dos poemas que não raramente intercambiavam entre si. Este a seguir foi escrito por Anne no dia 17 de fevereiro de 1963, seis dias após o suicídio de Sylvia.|

A MORTE DE SYLVIA, por Anne Sexton

para Sylvia Plath

tradução de Anna Carolina Rizzon

 

Oh, Sylvia, Sylvia,

com um caixão de pedras e colheres,

com duas crianças, dois meteoros

vagando à solta por uma saleta de jogos,

com sua boca enfiada no lençol,

na viga do telhado, na prece muda

(Sylvia, Sylvia,

para onde você foi

depois de me escrever

de Devonshire

sobre cultivar batatas

e criar abelhas?),

a quê você se prendeu,

como você se entregou?

Ladra —

como pôde se rastejar,

se rastejar sozinha,

para a morte que há tanto desejo que seja minha,

a morte que ambas alegamos ter superado,

aquela que carregamos em nossos peitos magros,

aquela sobre a qual constantemente discutimos a cada vez

que tomávamos três martinis extra-secos em Boston,

a morte que falava de analistas e curas,

a morte que falava como noivas em conluio,

a morte à qual bebemos,

os motivos e o ato furtivo?

(Em Boston,

os moribundos

andam de táxi,

sim, a morte de novo,

que viaja a casa

com nosso garoto)

Oh, Sylvia, eu me lembro do baterista sonolento

que tamborilou em nossos olhos com uma história antiga,

como quisemos deixar ele vir

como um sádico ou fada nova-iorquina

para fazer seu trabalho

uma necessidade, um buraco na parede ou um berço,

e desde então ele espera

sob nosso coração, nosso criado-mudo,

e vejo agora que o abastecemos

ano após ano, velhos suicídios

e eu conheço, à notícia de sua morte,

um gosto terrível para isso, tipo sal,

(e eu,

eu também.

E agora, Sylvia,

você de novo

com a morte de novo,

que viaja a casa

com nosso garoto.)

E eu digo somente

com meus braços estendidos naquele pedregal,

que é tua morte

se não um velho pertence,

uma verruga caída

de um de seus poemas?

(Oh, amiga, enquanto a lua é má

e o rei está longe

e a rainha perde sua lucidez

o pinguço deve cantar!)

Oh, mãezinha,

você também!

Oh, duquesa estranha!

Oh, coisa loura!

 

Leia também o poema original aqui.

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