RESENHA — Acqua Toffana, de Patrícia Melo

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 4,5/5

Pode-se viver tranquilamente sem amor, mas não sem ódio.

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É com essa frase que Patrícia Melo resume ambas as novelas contidas em seu primeiro livro – cujo título, sugestivo, é homônimo ao de um veneno da Renascença, famoso por sua discrição e pelas mortes lentas e dolorosas, mas principalmente por se tratar de uma arma  popular entre mulheres que queriam se livrar de seus maridos. Aliás, esse é exatamente o plot da primeira história: uma mulher, desesperada, tenta convencer um delegado a prender seu esposo, quem ela acredita ser o assassino em série conhecido como ” estrangulador da Lapa”, mas sua narrativa ora mergulhada em delírio, ora numa certeza brutal, deixa tanto ele quanto nós com um pé atrás.

A personagem, uma autodeclarada nosofóbica, ansiosa e, por que não?, agorafóbica, descreve, com muitíssimos detalhes quando lhe convém, e pouquíssimos quando julga que a passagem é desinteressante, o caminho até sua conclusão e a decisão de recorrer à polícia. Rubão, o marido, um editor de programas de culinária, pouco a pouco perdeu o interesse nela, o que a deixou num estado depressivo e paranoico, culminando na suspeita de traição. Certo dia ela resolve segui-lo numa de suas “chamadas urgentes”, para flagrá-lo com outra mulher.

Tomada de ciúme, sua mente oscila entre a realidade e as histórias forjadas por suas neuras, que são alimentadas pelos filmes tipicamente americanos que ela consome pantagruelicamente enquanto Rubão está fora. Quando as amantes pouco a pouco vão aparecendo mortas, e objetos característicos delas caem na mão da protagonista, travestidos de presentes, nossa narradora tem a certeza de que o monstro procurado pela polícia divide seu leito.

No entanto, se opõe a entregá-lo, a princípio. Alega que seu ciúme está baseado não no sexo que ele tem com outras, mas no desejo de matá-las – algo que ele nunca sentiu por ela. A única coisa que Rubão jamais lhe daria era aquilo.

E, da mesma forma, se de início nos propusemos a duvidar de seus relatos dada a evidente perturbação de seu juízo, pouco a pouco somos envolvidos por sua história, nos consolidamos e, apesar da falta de uma segunda testemunha, alguém que confirme que tudo não se trata de uma projeção de sua mente bagunçada, chegamos a torcer para que prendam Rubão em flagrante.

Isso até Patrícia Melo resolver nos lembrar que estamos lidando com acqua toffana, um veneno que passa despercebido, matando sua vítima tão lentamente, gota por gota, mal-estar por mal-estar, que nunca desconfiariam ter sido envenenada.

A escrita mistura o fluxo de consciência poético com alguma visceralidade natural das narrativas urbanas.Todos os pequenos clichês presentes na fala e nos gestos da primeira protagonista são justificáveis, e embasados, por seu apreço pela indústria de Hollywood. Além disso, a autora nos oferece possibilidades de interpretação; podemos descreditar a mulher logo nas primeiras páginas, mas também acabar lhe dando demasiados créditos. A verdade cabe ao leitor.

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Patrícia Melo

A segunda narrativa, por outro lado, se dispõe a dissecar uma verdade escancarada. Um homem infeliz, mecânico, amarrado por seu cotidiano de pai-trabalhador-marido, repentinamente é acometido pela vontade de matar sua vizinha. De início, é só uma ideia, algo que lhe ocorre e ele tenta esquecer ao longo do dia. Rapidamente, entretanto, essa ideia se transforma numa obsessão.

Muito mais incômoda não só por se focar no criminoso, mas por apresentar a vítima pela tangente, isto é, por não nos dar a oportunidade de nos aprofundarmos na vítima, restringindo-a a esse papel, essa novela, também narrada em primeira pessoa, percorre minuciosamente os caminhos mentais de alguém que decide cometer um assassinato. O protagonista, porém, não quer nos convencer de seus motivos – coisa que muitas histórias sob o mesmo viés acabam fazendo pelo pressuposto da “outra perspectiva”; ao contrário, ele reconhece que está sendo irracional em alguns momentos.

O grande triunfo aqui está em despertar no leitor tremenda simpatia pela vítima através do desprezo com o qual ele lida com ela. Quase uma psicologia reversa, digamos. Muito mais que um estudo dos por quês do homicida, é um estudo de sua relação com a mulher a quem resolveu matar, do sistema maquinal a que somos impostos, das obsessões e de nossa necessidade de sermos mais do que peças controladas pela sociedade.

Nessa, Patrícia deixa o fluxo de consciência um pouco de lado, mas segue investindo na imersão e misturando a realidade às alucinações do personagem. A proposta do livro, como um todo, fica mais clara a partir do momento em que estabelecemos uma linha metafórica com o veneno que o batizou: gota por gota, mal-estar por mal-estar, padecemos envenenados por nossos próprios desejos.

A autora foi premiada com o Jabuti por seu romance “Inferno” e, em 1999, a revista TIME a incluiu entre os cinquenta líderes latino-americanos do novo milênio. Saiba um pouco mais sobre Patrícia Melo e suas obras aqui.

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