RESENHA — O Clube dos Suicidas, de Robert Louis Stevenson

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 4/5

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Antes de nos aprofundarmos nas escolhas narrativas de Stevenson, tenhamos em mente seu contexto. Escocês de alma nômade, o escritor mudou-se diversas vezes, percorrendo países como Inglaterra, França, EUA e Suíça, velejando por arquipélagos do Pacífico-Sul e, finalmente, se instalando em Apia, nas Ilhas Samoa, onde veio a falecer. Publicou o clássico “O Médico e o Monstro” em 1886, que lhe deu notoriedade artística, mas já havia publicado títulos aclamados anteriormente, como “A Ilha do Tesouro”, resultado claro de seu apreço pelas aventuras e o primeiro a lhe render fama.

Aliás, essa palavra devia ser uma das favoritas de Stevenson, que gostava de pensar em si como uma figura heroica. Carregada de personagens repletos das virtudes mais virtuosas que existem, é evidente que parte de suas ficções era uma tentativa de pintar, mais até do que uma boa imagem literária, uma boa imagem pessoal. Pelo menos é essa a impressão que “O Clube dos Suicidas” deixa. Ambientado numa Londres extravagante, mas populada por almas em martírio, o livro, compostos por três novelas que se intersectam, é um dos precursores do gênero detetivesco ao lado de “O Homem na Multidão”, de Edgar Allan Poe. Deveras, Stevenson constrói uma narrativa que consiste, basicamente, em homens juntando pistas e informações para fazer prevalecer sua moral sobre outros corrompidos por uma sociedade virulenta.

A primeira história, “A história do rapaz com as tortinhas de creme”, nos apresenta ao Príncipe Florizel e seu Sancho Panza, o coronel Geraldine, dois homens muito cavalheirescos e sedentos por emoção que acabam num estranho clube onde senhores cansados da vida vão para buscar a morte. O clube segue a linha das sociedades secretas que até hoje nos chamam a atenção, seja na ficção ou na vida real, seja na forma de uma festa de orgias, como em “De Olhos Bem Fechados”, ou seja na de um teatro vampírico, como em “Entrevista com o Vampiro”. Isto quer dizer que raramente essa escolha falha, pois condensa os elementos básicos para o suspense e mais ainda se ele for investigativo. Acontece, porém, que a sociedade secreta em questão não lida com os suicidas no sentido mais familiar da palavra, haja visto que eles não executam o ato, mas esperam que outro membro do clube, por sorteio, os mate.

Pois até que o que parecia uma dissecação das razões dos suicidas faça uma curva bem fechada para uma exaltação de valores heroicos, essa história caminhava bem. Eu fiquei bastante empolgada com algumas passagens, onde Stevenson equilibra certo moralismo com a ironia, um casamento que, surpreendentemente para mim, deu certo. Mas o choque entre o que eu esperava e o que o autor me deu poderia ter arruinado minha experiência. Não é, de forma alguma, um livro sobre causas suicidas ou sobre questionamento do espírito de um depressivo. É sobre patifes.

A segunda novela, “A história do médico e do baú de Saratoga”, mergulha de cabeça no que mais tarde consagraria o gênero policial. Mais direta em suas pretensões, é a melhor das três. Aqui Stevenson deixa claro seu talento para lidar com as perturbações da moral: um jovem tímido, quando diante de uma arapuca que pode incriminá-lo por um assassinato que ele não cometeu, deve arrumar um jeito de se livrar do corpo sem chamar a atenção das autoridades. Todas as qualidades de um bom suspense estão presentes: figuras intrigantes, um protagonista curioso, um acontecimento que o obriga a questionar seus princípios e uma reviravolta nas últimas páginas. Tanto que, se falar muito dela, é provável que encha o leitor de spoilers e acabe com o encanto desse trecho.

O que deixa a terceira, “A aventura do cabriolé”, numa posição delicada. Stevenson escolheu fazer dela simplesmente o que ela é: um desfecho. Como já foi apontado, as três narrativas são ligadas entre si, embora contem com particularidades que as tornam independentes. Em comparação com as outras, esta é um tanto mais arrastada e mais-do-mesmo. Igualmente, um homem mui virtuoso, herói de guerra, se vê diante de uma situação esquisita quando sobe num cabriolé e vai parar numa mansão ao lado de convivas escolhidos ao acaso e dispensados, um por um, até sobrarem quatro, aos quais é encarregada uma missão que confronta suas virtudes. Para não estragar seu único trunfo, vale dizer aqui, apenas, que se trata de um encerramento razoável e previsível, mas que remonta às histórias de capa-e-espada, sendo impossível não recordar, por exemplo, de Alexandre Dumas pai – que não chega a ser, no entanto, apontado como uma influência de Stevenson.

Não compreendesse o entorno do autor, eu daria para “O Clube dos Suicidas” nota 3,5/5. Mas acredito que uma boa crítica deve considerar, também, as motivações por trás da escrita. De qualquer forma, a segunda narrativa, por si, vale essa nota.

Essa edição foi organizada por Fernando Sabino para a coleção Novelas Imortais. Saiba mais sobre a coleção aqui.

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