RESENHA — Agosto, de Rubem Fonseca

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 5/5

Como a maioria dos leitores, tive contato com Rubem Fonseca por meio de seus contos. O primeiro livro que adquiri dele foi “Secreções, Excreções e Desatinos”, de 2001. Logo de cara percebe-se que Rubem é o tipo de autor que ou você ama ou você odeia. Objetivo, sádico e irônico, suas obras se caracterizam por frequentemente trazer à tona sentimentos como nojo, revolta e pena, mas sem escorregar na gratuidade de suas escolhas narrativas. Após ler duas coletâneas de contos, decidi arriscar o romance “O Caso Morel”, de 1973. Ao terminá-lo, já tinha Rubem como um de meus autores favoritos.

agosto

Não duvidei em momento algum, portanto, que “Agosto” (1990) fosse, no mínimo, bom. Embora não figurasse entre minhas opções de compra no momento – estava atrás de “Feliz Ano Novo” e “A Grande Arte” quando me dei com ele -, optei pelo nem sempre fiável “por que não?”. De todo modo, tinha expectativas altas. Há tempos que procurava ler um romance político.

O livro trata, em suma, da pressão midiática, popular e militar para que Vargas renuncie, examinando alguns dos episódios que precederam seu suicídio em agosto de 1954. Chamarei de coincidência tê-lo adquirido — e lido — logo agora que enfrentamos circunstâncias delicadas na política brasileira. O protagonista, Mattos, é uma versão menos romântica (ou mais, dependendo do ponto de vista) de Serpico, do Pacino. Fora todos os detalhes do cenário da época, romantizados a fim de manter o livro como ficção, e não pura lengalenga conspiratória, Rubem constrói personagens simpáticos e complexos sem muito esforço. Esse livro reforça minha opinião de que a literatura policial depende muito mais de condutores carismáticos do que de acontecimentos bizarros — embora ambos sejam servidos. Mais do que isso, ele não se limita a escrever apenas um suspense que, claro, já sabemos como vai acabar – o que poderia dar bem errado em mãos menos habilidosas -, evitando o lugar-comum por fazer de Getúlio alguém onipresente, sem imergir diretamente nele como personagem.

O senador Vitor Freitas, comandantes do exército brasileiro, o jornalista Carlos Lacerda e um ou outro cidadão mais bem informado desempenham o papel de iconoclastas, destruindo pouco a pouco pequenas representações de Vargas, corrompendo-o a tal ponto que o levam ao suicídio. Mattos, porém, nunca se envolve diretamente em assuntos políticos, se limitando a dizer “gosto dele” ou “não gosto dele” quando conveniente, o que é interessante para a dinâmica da história, haja visto que o detetive investiga uma morte “possivelmente associada” ao governo e deve se manter tão neutro quanto possível. O que sabemos de suas inclinações – foi militante do queremismo, mas depois mudou de ideia quanto às ações de Getúlio – não chegam a intervir num juízo de valor. Portanto, apesar de serem inúmeras, não somos exauridos com as informações políticas, pois se Mattos dá de ombros pra muita coisa, e se vive mudando de ideia, por que nós não?

Valendo-se desse recurso, Rubem estende a catarse do protagonista ao leitor quando, de súbito, o detetive se apieda do presidente. Trata-se, portanto, de uma trama que condensa o melhor do escritor, injetada de uma perspectiva histórica e social que intensifica nosso vínculo com o país, com a Literatura e, obviamente, reforça a qualidade de Rubem Fonseca como crítico e como autor.

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