CONTO — O Maestro e a Puta

 

O MAESTRO E A PUTA

Por: Anna Carolina Rizzon

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1.
23:02h.
A puta chamada Hailey dá cinco batidinhas na porta da frente.

2.
— Dona B.?
— Eu mesma.
— Como vai?

Cumprimentam-se conforme as etiquetas tradicionais, um beijo em cada face. B. a faz entrar e a conduz à sala, serve duas taças de vinho argentino, ocupam sofás diferentes. Cruzam as pernas. Hailey comenta:

— Sua casa é bem moderna, adorei.
— Obrigada.
— Você que decorou?
— Foi.
— É linda, igual a você.
— Obrigada.

Duas covinhas marcam as bochechas da puta. B. estuda seu rosto parcialmente iluminado pela luz do abajur de pé. Vinte e cinco anos, um e sessenta e sete, manequim 38, morena. Inteligente, apimentada e discreta. Disponível para eventos, festas e viagens a combinar. Topa trio. Faz oral sem preservativo.

— Seu marido não chegou?
— Ele não vem.
— Just us girls, então?

Sorriso mais largo. Sulcos ao lado da boca. Dentes brancos e retos.

— Just us girls. — B. confirma.

3.
Vestido tubinho preto. Louboutin. Cabelos longos e lisos.

— Por que tão longe? Vem pra cá.
— Quero te ver primeiro.
— Vê mais de perto.
— Você já atendeu mulheres?

Risadinha.

— Já.
— Muitas?
— O bastante.
— Mulheres tipo eu?

4.
Piano. Sonata ao luar. Você sabe a diferença entre um Adagio, um Allegro e um Vivace?

— Eu nunca fiz isso.
— Tudo bem. A gente tem tempo.
— Melhor algo mais agitado?

Um Allegro é mais rápido que um Allegretto e mais lento que um Vivace.

— O que você prefere? Gal Costa? Belchior? The Doors?
— Tanto faz, meu bem. O que você quer ouvir?

O Adagio tem entre 66 e 76 batidas por minuto, é bem lento.

— Eu devo ter uma dúzia de CDs de novela.

Vem cá, deixa eu te mostrar.

— Acho que vou botar Celine Dion.
— Quem é essa?

Sonata ao luar começa em Adagio.

5.
Mãos pequenas. Unhas pintadas de rosa-pink. Boca pintada de vermelho escuro. Uma pinta oval no pescoço.
Hailey:

— Eu acho que todo casal tem o direito de se divertir sozinho de vez em quando, sabe?

B.:

— Você atende muitos casais?

Hailey:

— Atendo muitas pessoas casadas.

B.:

— Muitos religiosos?

Hailey:

— Já atendi católicos, budistas, hindus, judeus… Fiz curso de sexo tântrico para prestar serviços espirituais nessa área. — ri.

B.:

— E políticos?

Hailey:

— Amanhã vou pra Recife com o prefeito.

6.
A puta comenta:

— Eu adoro arte.

Mostra um quadro de Rembrandt no celular. A Lição de Anatomia do Dr. Tulp. Soube dele na aula de História e Sociedade com professor doutor Fernando Marinho.

— É meu quadro favorito. Não dá pra reparar nos detalhes assim, mas eu tô juntando dinheiro pra ver o original na Holanda.
— Você estudava o quê?
— Turismo.
— Holanda é um lugar bonito.
— Também quero ir pra Paris. Você já foi pra Paris?

Sim. Mais vinho.

— Na minha lua-de-mel. — responde B.

7.
Celine Dion emudece. B. confere a porta da varanda. Para de pé junto do som.

— Melhor ir pro quarto, né?
— O que você quiser, meu bem.
— Tira os sapatos.

Sobem as escadas. Atravessam o corredor de paredes nuas. Adentram a suíte.

— Ui, aqui é frio. — Hailey comenta.

8.
Omeprazol e porta-retratos. Um livro do Paulo Coelho. Um copo de água vazio. B. tateia em busca do interruptor do abajur.

— Deixa a luz acesa. — pede a puta.
— Não.

B. se despe. Muito magra e muito branca. Sem curvas. Pálida. Peitos que desistiram de crescer. Bunda seca. Pés longos. Pernas finas. Pescoço comprido. Pintas escuras e miúdas espalhadas pelas costas, pequenos coágulos de canela sobre leite desnatado. Uma camada fina de pelos louros sobre os braços e sobre a xota.

Hailey se despe.

— Você não queria me ver?

9.
Gosto de vinho, de bala de menta, de batom.

— Vocês beijam?
— Eu beijo.
— Qualquer um?

Cheiro de perfume caro, de cigarro, de Halls verde-escura.

— Beijo em cima e embaixo se você quiser.

Cheiro de puta.

10.
Lembra da diferença entre um Adagio, um Allegro e um Vivace?

— O que você quer que eu faça com você? — Hailey.
— Eu nunca fiz isso. — B.
— O que te excita? — Hailey.

Vivace significa vivaz.

— O que você costuma fazer? — B.

Geralmente é o último movimento nos concertos.

— O que excita você? — B.
— O que me excita pode não te excitar.

Mas, de verdade, comparar sexo a tocar piano é um clichê que deve ser evitado sempre que possível.

— Faz de conta que eu sou seu espelho. — B.

Até porque a melodia do piano é sublime. A do sexo, não.

11.
É lua cheia do outro lado da janela. Um espectro sólido jaz do lado direito da cama, empapando o lençol de suor. Hailey se levanta, estuda o corpo de delito no colchão e vai ao banheiro. Mija no escuro. B. também sente a bexiga apertar a cada vez que tem um orgasmo. Vai ao sanitário quando Hailey volta. Limpa o assento com álcool gel. Se lava com sabão de glicerina. Se seca. Se escora na batente, um vulto no umbral. A luz da lua morre antes de alcançar a puta.

— Hoje é meu aniversário de casamento. — diz B. — Quinze anos.

Hailey veste a calcinha.

— Você era novinha, então. — Hailey comenta.
— Dezessete. Ele era meu professor de música. Joguei meus melhores anos fora por um velho babão.

Hailey coloca o vestido. B. prossegue:

— Mas a gente se amou bastante. Eu te daria uma carona, mas meu filho tá dormindo e a babá tá de folga hoje.
— Eu pego um táxi.
— Vou deixar cinco estrelinhas lá no site.
— Você já fez isso antes, não fez?

B. acende a luz. Os fantasmas se dissipam. B. pede:

— Coloca os sapatos lá embaixo, por favor.

B. se veste.

12.
23:02h.
A puta chamada Melina dá cinco batidinhas na porta da frente.

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