POESIA — Todos os cantos do mundo

No meu peito aportam todos os barcos do mundo,
aqui estão todos os cais,
todas as estações de trem,
todos que passam por mim
na ida e na volta
sem me esperar jamais.
Daqui partem todos os andarilhos,
ficam os meios, o resto se vai,
vira a esquina,
sacode a mão,
aqui se esvaziam todos os navios,
aqui estão todos os cais.

No meu peito cabem todas as dores do mundo
e todas as paixões que deixei de cultivar,
aqui cabem todos os que poderiam ser,
todas as ideias e todos os esboços,
os que foram
ficam pra trás.
Aqui os fantasmas e as concretudes,
às brumas tudo o que estava por acontecer.
Detêm-se os trens com todos os sonhos do mundo,
vão-se cheios
a Alcatraz. Continuar lendo

CRÔNICA — São Paulo, s.f.:

Poucas foram as vezes em que ultrapassei os 90 km que separam Teresópolis do Rio de Janeiro. Raramente visito a capital. Tenho melindres com as grandes cidades. Não há nada mais assustador que as possibilidades infinitas. Quando o faço, e quando vou além, é buscando enervar as partes letargiadas pela vidinha bucólica que levo na serra, ou atrás de nova paz, uma que já não encontro aqui, e neste caso meu destino não pode, de forma alguma, ser simplório.

Escolhi São Paulo, ou São Paulo me escolheu (embora seja difícil acreditar nisso. O que uma cidade tão magnânima poderia querer com alguém que sequer sabe se equilibrar no metrô?). Minhas expectativas eram baixas e associadas ao medo crônico de ser engolida. São Paulo, essa baleia azul; eu, um krill. As primeiras quatro horas que nos separavam foram gastas numa posição só: testa contra o vidro de uma janela que eu não sabia abrir, pernas esticadas, ocupando os pouquíssimos metros entre um banco e outro, braços cruzados apertando a bolsa contra a barriga, fones encaixados de tal modo nas orelhas que parecem uma extensão delas, as costas tão erroneamente quanto possível apoiadas na poltrona. O saldo disso tudo foi uma dor incômoda na lombar, nos joelhos e no pescoço quando o ônibus fez sua parada em Resende e me tirou do pseudo-transe em que me encontrava.

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RESENHA — Carol, Todd Haynes

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 5/5

Discorri longamente sobre o livro que deu origem a “Carol” aqui. Ainda assim julgo necessário escrever um artigo só para o filme, muito embora pouco reste para dizer a respeito da história. Trata-se de um caso em que a cinematografia fez toda a diferença e distanciou completamente as duas experiências – ambas excepcionalmente positivas -, o que mostra não só o poder da perspectiva sobre uma narrativa que foca na desconstrução de um personagem, como também a complementaridade das quinta e sétima artes. Se por um lado Patricia Highsmith escreveu uma obra doce e impactante sobre uma jovem se descobrindo através da paixão por uma mulher mais velha, o trio Todd Haynes-Phyllis Nagy-Ed Lachman reconstruiu o romance através dos contrastes, dando mais solidez a Carol, sem, contudo, abrir mão do torpor em que se encontrava Therese. O resultado disso é um filme que passeia por cenas carregadas de distorções oníricas, sentimentos que se estendem ao espectador por meio da trilha sonora e, claro, duas exímias performances que se chocam ao mesmo tempo em se equilibram. Continuar lendo

ARTIGO — De escritores e cozinheiros

Eu gosto muito de cozinhar. É uma atividade que me relaxa, especialmente se eu não tiver que lavar a louça depois. Não tenho pretensões maiores que fazer refeições gostosas para mim e para minha família, ou meus amigos. É o tipo de atividade bem altruísta. Quem curte cozinhar curte ver os outros saboreando seus pratos. Mesmo que sejam simples. Mesmo que seja um miojo — a satisfação do outro é quase tão grande quanto a sua.

Por isso uso os melhores ingredientes possíveis dentro do que estou disposta a fazer. Hoje, por exemplo, diante da necessidade de cozinhar um quebra-galho, preparei o infalível macarrão-com-molho-de-tomate. Ou quase. Diante da escassez de tomates em minha geladeira, e porque eu esqueci de comprar o molho semi-pronto, minha alternativa em 90% das vezes, tive que recorrer ao ketchup.

Triste, eu sei. Me incomodou o suficiente para que pedisse desculpas ao servi-lo. Continuar lendo

ARTIGO — Lo-Li-Ta

lolis

Aprendi a ler e a escrever aos treze anos. Meus pais guardavam os “livros adultos” em um armário, mas meu acesso a eles não era restrito. Na verdade, até o estimulavam, não obstante o alerta: “a maioria você não vai entender agora.” Eu ignorava. Queria lê-los. Sabia, já então, que havia algo ali à minha espera, algo que eu não encontrava na biblioteca da escola, mesmo quando, furtivamente, ia atrás daqueles marcados pela bolota azul.

Era um azul-bebê, nada opressivo, apenas intimidante. Os dizeres da legenda de catalogação ecoavam em minha cabeça oca: “dezesseis anos”. Eu sequer ousava chegar perto da seção das bolotas pretas. Aquelas páginas sórdidas me assustavam quase tanto quanto despertavam minha curiosidade. Deixava aqueles volumes quietos, porque eu não iria entendê-los; queria, mas não iria. Os de faixa azul eu ainda tentava. Arriscava levá-los para a bibliotecária, com olhar pedinte. “Por favor.” Após alguns fracassos, passei a lê-los escondidos, lá mesmo, durante o recreio. Assim constatei que o que estava na minha faixa etária era, pra mim, à época, enfadonho.

Do armário de meus pais, puxava os títulos que me pareciam apropriados para aquele estado de espírito pseudo-subversivo. Assim li “O Incêndio de Tróia” e boa parte de nossa coleção do Dean Koontz. O primeiro segue como um dos meus favoritos até hoje, e foi essa euforia pós-descoberta de uma história impactante que me voltei para todos aqueles títulos com anseios que só posso descrever como “de espírito”. Não era uma necessidade adolescente, intelectual. Isso tudo é superficial demais. Eu sabia o que queria encontrar, mas não sabia onde. Com sorte sou preguiçosa; apesar do afã, evitei ler o armário todo. Continuar lendo

ARTIGO — Saramago Superstar

Não sei dizer quando ser escritor se tornou tão legal.

É bem verdade que o ofício carrega certo status. “Sou escritor”, e o interlocutor responde com um misto de admiração e pena. Te tem por excluído e genial.

Mas a admiração tá lá.

Só que hoje escritor tem fã. Não mais um séquito de indivíduos dispostos a provar por A + B que fulano disseca a sociedade como se as palavras fossem um bisturi, e sim um conglomerado de gente histérica que não admite haver, nesse mundão cibernético, quem não considere seu ídolo um bom autor.

Herança da cultura pop? Talvez. É difícil determinar sem cair em non sequitur.

Observa-se, no entanto, jovens ensandecidos querendo se tornar “o novo Stephen King”, “o novo Tolkien”, “a nova J. K. Rowling”, “o novo John Green”, “o novo George R. R. Martin”.

Curiosamente, todos autores massificados.

Ruins? Não.

Se formos estabelecer um parâmetro com toda a vastíssima gama de adeptos da sexta arte, contudo, tampouco são tão admiráveis quanto o seleto grupo que ninguém ousa tentar reproduzir — ou se comparar a.

A cultura pop é um movimento que atinge, essencialmente, jovens. Acostumados a gritar e sacudir os braços para as estrelas da música e de Hollywood, naturalmente transferiram o comportamento para aqueles escritores que cobrem um público semelhante.

Sem entrar nos méritos de qualidade literária, há quem se gabe e se alimente desse surto, e quem aspire uma carreira no ramo da escrita tão somente para ter uma arroba de fã-clube no Twitter.

Escrever não é chique.

Escrever é pop.

Evito categorizar o escritor como um cara que arrota intelectualidade. Nem sempre; um escritor pode, tão somente, mascarar sua ignorância de forma sublime. Quem não consegue fazer nem isso ainda, é aspirante.

Não é à toa que a Literatura reside entre as duas artes que mais dependem da mentira: o Teatro e o Cinema. Um bom escritor talvez seja um ator que dispensa o palco. Um forjador da própria imagem.

Desse modo, é possível entender que o processo pelo qual estamos passando. A figura que outrora apresentava-se como intocável porque assim se idealizava, em parte quer ser, agora, tão acessível quanto possível.

E bastando ter um computador e um editor de texto para se nomear um autor, com a difusão de cada vez mais plataformas de publicação digital e uma massa leitora pouco exigente, isso está ao alcance de qualquer um.

Só que não é tão legal assim, logo se vê.

Se eu pudesse deixar um conselho para quem quer ser um escritor, seria: desista.

Não é bonito. Não é romântico. É frustrante.

Diria, até, que a única parte legal de ser escritor é poder se colocar no mesmo grupo do Saramago.

“Sou escritor, o Saramago também.”

É… Talvez seja isso…

Esqueçam esse texto. Todos os escritores o são pelos aplausos dirigidos a outros escritores.

ARTIGO — Por que eu ainda procuro editoras

A primeira coisa que eu aprendi quando resolvi que seria escritora, lá nos primórdios de minha adolescência, foi que eu precisava arrumar logo um marido rico e velho, ou ganhar na Mega-Sena (ou arrumar um emprego decente, mas essa possibilidade é a mais remota).

Escrever e ganhar dinheiro são realidades tão dicotômicas que, presumo, deve haver alguma regra gramatical a respeito de nunca usar os dois termos na mesma frase.

Não, não estou considerando as exceções. J.K. Rowling tem dinheiro pra comprar a Inglaterra, mas enquanto Harry Potter era fecundado, sua realidade não era muito diferente da maioria dos autores. E, sejamos realistas, ninguém aqui (nem eu, que escrevo esse texto, nem você, que o lê) vai escrever o novo Harry Potter.

Sem drama.

Não vamos.

Conformados? Pois bem. Continuar lendo

ARTIGO — Sobre a originalidade na Literatura

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Esses dias eu cismei com odaliscas.

Google > odalisca > pesquisar.

Fantasias eróticas.

Google > odalisca pintura > pesquisar.

Mulheres deitadas, nuas ou seminuas, ora acompanhadas de um narguilé, ora de escravos, aquela pose tão marcante que podemos chamá-la “pose de odalisca”, às vezes cercadas por luxo, às vezes pelas paredes frias do palácio.

Iguais, numa olhada rápida, com exceção de uma e outra mais ousadas, de pé.

Numa análise mais atenciosa, suas diferenças gritam.

A “Odalisque” de Hayez está bem longe de “Odalisque” de Delacroix. A de Ingres entedia-se com a suntuosidade, a de Lefebvre com a solidão. A de Matisse cobre as partes baixas, a de Boucher, os seios. “Olympia” é soberana, mas não mais que a Vênus diante do espelho.

Certamente sabiam, todos eles, que havia uma grande quantidade de odaliscas a serem pintadas. Pergunto-me se lhes perturbou o clichê.

Não podemos dizer, no entanto, que não eram originais.

Assim a Literatura.

Escritores, todos eles, pintando odaliscas, variando posições, expressões, cores e cortinas, se-não-tiver-isso-não-é-odalisca, se-fizer-assim-é-cópia.

“Será que alguém já fez uma odalisca tocando guitarra?”, pergunta-se o pós-modernista.

Google > odalisca guitarra pintura> pesquisar.

ARTIGO — Da flaubertização de parágrafos

Diz-se por aí que Flaubert era um maníaco perfeccionista; passava horas (com ou sem hiperbolismo, jamais saberemos) revisando seus parágrafos, e não ia para o seguinte enquanto aquele em que trabalhava não estivesse o mais próximo possível do que ele considerava perfeito.

Quando li isso, foi como se me dessem um abraço. Melhor: foi como se Flaubert me desse um abraço. Em um ambiente no qual me dirigem sempre a mesma dica – “jogue tudo no papel, depois lapide” – me sentia solitária, improdutiva, cismada, ansiosa por ser incapaz de seguir adiante sabendo que aquela frase horrorosamente composta está ali, no meu parágrafo, e que mais tarde tornarei a ela porque sei que ela é horrível. Por que não ajeitar agora? Por que não interromper a vomitação do texto para deixar tudo bonitinho, e dar continuidade com a consciência tranquila? Não é muito mais prazeroso?

Diziam, ainda, que por essa mania Flaubert levava muitíssimo mais tempo que seus companheiros (de época? De ofício?) para terminar um livro, um texto, um epitáfio. As justificativas dos que bradam “escreva primeiro, ajeite depois”, com seus cartazes escritos em letras vermelhas, capitulares, quase ameaçadoras, são as mesmas: “assim você trava sua produção”, “assim você não termina nunca”, “assim você só vai escrever um livro a cada 20 anos”.

É verdade. Eu demoro cerca de 6 horas (marcadas) para escrever menos de mil palavras. Ontem mesmo, tirei a noite para trabalhar em um texto, das 21:00 à meia-noite, e embora já estivesse certa do que ia colocar, e como, escrevi não mais que 200 palavras.

A questão é que esse método (carinhosamente, e criativamente, apelidado por mim de “flaubertizar”) é a maior parte do prazer de se fazer Literatura. Saborear individualmente cada palavra, lustrar os parágrafos como se fosse prataria, demorar-se no que se quer dizer, avaliar se há algo melhor a ser dito, e dizê-lo de modo a expressar exatamente (ou perto o bastante) da forma como foi pensado. E isso no rascunho, na segunda versão, na terceira, na quarta, na quinta… O casamento entre conteúdo é forma é o único que eu aprovo. Divorciá-los seria de uma crueldade imensa. Além do mais, acostuma o cérebro a pensar através das palavras, não só das imagens.

Isso, segundo moi, é claro, é imergir no texto. É imergir nas sensações. É imergir em si. Um texto escrito “de qualquer jeito” para “ser arrumado depois” é um texto pobre. Pode ser enriquecido nessa segunda visita – como quando nos mudamos e a princípio não há a preocupação de pôr tudo no lugar, mas depois reorganizamos de acordo com nossas intenções. Não significa que quem siga esse método é mau escritor. Contudo, eu acredito que o esmero de Flaubert reflita o simplório prazer de estudar cada combinação de palavras para tecer, da melhor forma, uma história, como testar as tintas numa paleta para encontrar o melhor tom, e só então passá-lo ao quadro.

A ironia reside no fato de que Flaubert podia não fazer nada disso. E basta essa dúvida para refutar meus argumentos…

ARTIGO — Plantando bananeira no bananal

Porque eu não consigo desenvolver uma ideia sem ter aquela voz rouca soprando no meu ouvido que ela é péssima e não vai dar em nada, acabei esmiuçando uma história que já caminha para ser das favoritas que formulei e constatar que sim, eu ainda reproduzo muito mais do que crio.

“Ah, mas isso não é tão ruim, a mente humana é incapaz de criar, no sentido literal; ela não inventa as coisas do nada, ela adapta informações.”

Certo, aí é que está o problema, amiguinho.

Eu consumo um percentual de material estrangeiro absurdamente maior do que o material nacional. Seja ficção ou não-ficção. Desde novinha eu achava muitíssimo mais legal estudar História Geral, pois “História do Brasil é muito chata, aqui não aconteceu nada de interessante”. E, de certa forma, isso se perpetua, por mais que a maturidade esteja me propiciando a amplitude do pensamento.

O primeiro lampejo de um drama despretensioso, que poderia se passar em qualquer época, teve como cenário a Alemanha Nazista.

“Ora, que mal há nisso? Você curte a Segunda Guerra Mundial. Você e uma caçamba de gente. É natural.”

Pois é, eu e uma caçamba de gente. Uma caçamba bem grande. Mas a problemática reside no fato de que minha proposta era focar o drama no relacionamento entre duas personagens, de modo que a Segunda Guerra seria apenas o meu pano de fundo.

“Melhor ainda, é só um detalhe”.

Mas quando seu cérebro elabora detalhes que sempre se voltam primeiro para o exterior, isso não é um sinal de que tem alguma coisa errada?

Ok, se a Segunda Guerra é “só” um background, não faria diferença a história se passar no Brasil ditatorial, nos tempos de Revolução Constitucionalista, no Primeiro Reinado, em 1972 ou, sei lá, ontem?

No momento, não, pois a ideia se desenvolveu de tal forma que depende do drama judeu, de Sachsenhausen, da SS e da ideologia enraizada na Alemanha da época. Agora, na altura em que se encontra, ela se apóia nesses fatos, e mudá-los seria despi-los de uma indumentária que lhe serve perfeitamente.

Entretanto, ainda é um pouco triste constatar que me foi preferível comprar as roupas em lugar de costurá-las.

Adoraria pensar que não sou obrigada a “gostar” da história do meu país. Para fins de escrita exageradamente dramática, como a minha, é realmente mais funcional usar aquelas terras massacradas por bombas e eugenia. Dá mais “pano pra manga”, para usar uma expressão nossa.

Mas seria deliberadamente imbecil se acreditasse nisso. Oh, sim, há material fabuloso sobre a condição dos judeus; “O Diário de Anne Frank”, “A Menina que Roubava Livros”, “O Pianista”, “O Leitor”, “A Lista de Schindler” — todos são alguns dos meus filmes e livros favoritos.

Da mesma forma, é de uma pobreza criativa enorme enxergar tragédia e drama onde é certo que há tragédia e drama. A gente sabe disso. Boa parte da sua educação te mostrou isso — faz parte da história do mundo, você é incapaz de viver sem saber quem é Hitler e o que foi o Holocausto. É quase como aprender a falar e andar.

Eu posso até me convencer de que posso trazer uma novidade, que não há fonte inesgotável. Nem por isso deixo de torcer o nariz. Vá lá, minha filha, ser mais uma banana no bananal. Com sorte, farão um bolo contigo, e durará mais do que cinco minutos.