RESENHA — Carol, Todd Haynes

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 5/5

Discorri longamente sobre o livro que deu origem a “Carol” aqui. Ainda assim julgo necessário escrever um artigo só para o filme, muito embora pouco reste para dizer a respeito da história. Trata-se de um caso em que a cinematografia fez toda a diferença e distanciou completamente as duas experiências – ambas excepcionalmente positivas -, o que mostra não só o poder da perspectiva sobre uma narrativa que foca na desconstrução de um personagem, como também a complementaridade das quinta e sétima artes. Se por um lado Patricia Highsmith escreveu uma obra doce e impactante sobre uma jovem se descobrindo através da paixão por uma mulher mais velha, o trio Todd Haynes-Phyllis Nagy-Ed Lachman reconstruiu o romance através dos contrastes, dando mais solidez a Carol, sem, contudo, abrir mão do torpor em que se encontrava Therese. O resultado disso é um filme que passeia por cenas carregadas de distorções oníricas, sentimentos que se estendem ao espectador por meio da trilha sonora e, claro, duas exímias performances que se chocam ao mesmo tempo em se equilibram. Continuar lendo

ARTIGO — De escritores e cozinheiros

Eu gosto muito de cozinhar. É uma atividade que me relaxa, especialmente se eu não tiver que lavar a louça depois. Não tenho pretensões maiores que fazer refeições gostosas para mim e para minha família, ou meus amigos. É o tipo de atividade bem altruísta. Quem curte cozinhar curte ver os outros saboreando seus pratos. Mesmo que sejam simples. Mesmo que seja um miojo — a satisfação do outro é quase tão grande quanto a sua.

Por isso uso os melhores ingredientes possíveis dentro do que estou disposta a fazer. Hoje, por exemplo, diante da necessidade de cozinhar um quebra-galho, preparei o infalível macarrão-com-molho-de-tomate. Ou quase. Diante da escassez de tomates em minha geladeira, e porque eu esqueci de comprar o molho semi-pronto, minha alternativa em 90% das vezes, tive que recorrer ao ketchup.

Triste, eu sei. Me incomodou o suficiente para que pedisse desculpas ao servi-lo. Continuar lendo

RESENHA — The Duke of Burgundy, P. Strickland

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 5/5

OBS: o texto a seguir contém alguns spoilers – nada que interfira na experiência, mas não tive como me esquivar deles; 90% do que é mencionado está no começo do filme.

O que difere uma obra de arte das outras com pretensões artísticas, ou das declaradamente alheias a tal propósito, é a gratuidade. Muito embora se possa dizer que nada é gratuito, tudo possui uma razão para existir – e, no caso da arte, tão subjetiva, para ser projetado –, é possível identificar, nas peças que nos são oferecidas, maior ou menor complexidade e maior ou menor densidade, isto é, como os elementos se conectam e quão exigentes são em sua interpretação.

Como a Literatura, o Cinema, quando empenhado em produzir algo que fuja do lugar-comum, precisa se apoiar muito mais na confiança de um público seleto e perspicaz o bastante para absorver tudo o que será transmitido do que no mero apelo de uma história “diferente”. Normalmente, isso significa ser fadado ao clamor dos críticos e à rejeição da massa. “The Duke of Burgundy” – que sequer chegou a ser traduzido quando veio parar no Brasil, graças à Netflix – é mais um desses casos; mesmo com alguns prêmios em sua conta (o International Cinephile Society Awards, por Melhor Filme, e o Grand Jury Prize por Melhor Narrativa no Philadelphia Film Festival, por exemplo), é underground o suficiente para que muito pouco se tenha ouvido falar dele à época de seu lançamento (fevereiro de 2015, no Reino Unido), que fará agora. Continuar lendo

ARTIGO — Lo-Li-Ta

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Aprendi a ler e a escrever aos treze anos. Meus pais guardavam os “livros adultos” em um armário, mas meu acesso a eles não era restrito. Na verdade, até o estimulavam, não obstante o alerta: “a maioria você não vai entender agora.” Eu ignorava. Queria lê-los. Sabia, já então, que havia algo ali à minha espera, algo que eu não encontrava na biblioteca da escola, mesmo quando, furtivamente, ia atrás daqueles marcados pela bolota azul.

Era um azul-bebê, nada opressivo, apenas intimidante. Os dizeres da legenda de catalogação ecoavam em minha cabeça oca: “dezesseis anos”. Eu sequer ousava chegar perto da seção das bolotas pretas. Aquelas páginas sórdidas me assustavam quase tanto quanto despertavam minha curiosidade. Deixava aqueles volumes quietos, porque eu não iria entendê-los; queria, mas não iria. Os de faixa azul eu ainda tentava. Arriscava levá-los para a bibliotecária, com olhar pedinte. “Por favor.” Após alguns fracassos, passei a lê-los escondidos, lá mesmo, durante o recreio. Assim constatei que o que estava na minha faixa etária era, pra mim, à época, enfadonho.

Do armário de meus pais, puxava os títulos que me pareciam apropriados para aquele estado de espírito pseudo-subversivo. Assim li “O Incêndio de Tróia” e boa parte de nossa coleção do Dean Koontz. O primeiro segue como um dos meus favoritos até hoje, e foi essa euforia pós-descoberta de uma história impactante que me voltei para todos aqueles títulos com anseios que só posso descrever como “de espírito”. Não era uma necessidade adolescente, intelectual. Isso tudo é superficial demais. Eu sabia o que queria encontrar, mas não sabia onde. Com sorte sou preguiçosa; apesar do afã, evitei ler o armário todo. Continuar lendo

RESENHA — Roseanna, Sjöwall & Wahlöö

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 2,5/5

Maj Sjöwall e Per Wahlöö são tidos como os precursores dos romances policiais escandinavos modernos. Sua série de dez livros, protagonizada pelo detetive Martin Beck e intitulada “A História de Um Crime” (acharão mais resultados se buscarem “The Story of a Crime”), é mundialmente renomada, e foi a responsável por consagrar o casal de jornalistas. Escrita em dez anos, aproveitando o horário em que seus filhos dormiam, dizem alguns, a série tem início com “Roseanna”, um suspense que envolve o estupro de uma jovem turista americana em circunstâncias que deixaram pouquíssimas evidências.

O corpo de uma mulher de origem desconhecida é encontrado durante a dragagem de um lago na Suécia. Sem qualquer pista de quem poderia ter cometido o crime, o inspetor Martin Beck mobiliza sua equipe em uma busca internacional por um assassino sem nome e sem rosto. Passados três meses, tudo o que sabe é que a jovem se chama Roseanna e pode ter sido assassinada por uma das 85 pessoas que estavam em um cruzeiro pelo Canal de Göta. Ao longo de meses de investigação, a lista de suspeitos, antes inexistente, ganha alguns nomes, até a polícia se deparar com um assassino cruel, que possui uma noção peculiar e doentia do que é certo e errado.

Confesso que esse foi um dos poucos livros que “comprei por comprar”. Estava na livraria sem saber o que procurava, numa dessas visitas aleatórias durante as quais esperamos alguma revelação divina, ou, no mínimo, uma capa mais interessante. “Roseanna” estava ali, junto de uma fileira de Sidneys Sheldons. Porque eu tinha acabado de ver uma série policial norte-americana inspirada numa série policial sueca, pensei que o livro teria mais ou menos a mesma qualidade (que não é lá muito alta, convenhamos, mas divertiu-me), especialmente por tratarem, julgando pela sinopse, da mesma coisa. Continuar lendo

ARTIGO — Saramago Superstar

Não sei dizer quando ser escritor se tornou tão legal.

É bem verdade que o ofício carrega certo status. “Sou escritor”, e o interlocutor responde com um misto de admiração e pena. Te tem por excluído e genial.

Mas a admiração tá lá.

Só que hoje escritor tem fã. Não mais um séquito de indivíduos dispostos a provar por A + B que fulano disseca a sociedade como se as palavras fossem um bisturi, e sim um conglomerado de gente histérica que não admite haver, nesse mundão cibernético, quem não considere seu ídolo um bom autor.

Herança da cultura pop? Talvez. É difícil determinar sem cair em non sequitur.

Observa-se, no entanto, jovens ensandecidos querendo se tornar “o novo Stephen King”, “o novo Tolkien”, “a nova J. K. Rowling”, “o novo John Green”, “o novo George R. R. Martin”.

Curiosamente, todos autores massificados.

Ruins? Não.

Se formos estabelecer um parâmetro com toda a vastíssima gama de adeptos da sexta arte, contudo, tampouco são tão admiráveis quanto o seleto grupo que ninguém ousa tentar reproduzir — ou se comparar a.

A cultura pop é um movimento que atinge, essencialmente, jovens. Acostumados a gritar e sacudir os braços para as estrelas da música e de Hollywood, naturalmente transferiram o comportamento para aqueles escritores que cobrem um público semelhante.

Sem entrar nos méritos de qualidade literária, há quem se gabe e se alimente desse surto, e quem aspire uma carreira no ramo da escrita tão somente para ter uma arroba de fã-clube no Twitter.

Escrever não é chique.

Escrever é pop.

Evito categorizar o escritor como um cara que arrota intelectualidade. Nem sempre; um escritor pode, tão somente, mascarar sua ignorância de forma sublime. Quem não consegue fazer nem isso ainda, é aspirante.

Não é à toa que a Literatura reside entre as duas artes que mais dependem da mentira: o Teatro e o Cinema. Um bom escritor talvez seja um ator que dispensa o palco. Um forjador da própria imagem.

Desse modo, é possível entender que o processo pelo qual estamos passando. A figura que outrora apresentava-se como intocável porque assim se idealizava, em parte quer ser, agora, tão acessível quanto possível.

E bastando ter um computador e um editor de texto para se nomear um autor, com a difusão de cada vez mais plataformas de publicação digital e uma massa leitora pouco exigente, isso está ao alcance de qualquer um.

Só que não é tão legal assim, logo se vê.

Se eu pudesse deixar um conselho para quem quer ser um escritor, seria: desista.

Não é bonito. Não é romântico. É frustrante.

Diria, até, que a única parte legal de ser escritor é poder se colocar no mesmo grupo do Saramago.

“Sou escritor, o Saramago também.”

É… Talvez seja isso…

Esqueçam esse texto. Todos os escritores o são pelos aplausos dirigidos a outros escritores.

ARTIGO — Por que eu ainda procuro editoras

A primeira coisa que eu aprendi quando resolvi que seria escritora, lá nos primórdios de minha adolescência, foi que eu precisava arrumar logo um marido rico e velho, ou ganhar na Mega-Sena (ou arrumar um emprego decente, mas essa possibilidade é a mais remota).

Escrever e ganhar dinheiro são realidades tão dicotômicas que, presumo, deve haver alguma regra gramatical a respeito de nunca usar os dois termos na mesma frase.

Não, não estou considerando as exceções. J.K. Rowling tem dinheiro pra comprar a Inglaterra, mas enquanto Harry Potter era fecundado, sua realidade não era muito diferente da maioria dos autores. E, sejamos realistas, ninguém aqui (nem eu, que escrevo esse texto, nem você, que o lê) vai escrever o novo Harry Potter.

Sem drama.

Não vamos.

Conformados? Pois bem. Continuar lendo

RESENHA — Sombras, Eduardo Sabino

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 4,5/5

Eduardo Sabino foi o vencedor do concurso Brasil Em Prosa, o qual visava, através de avaliação por uma bancada de jurados envolvidos com Literatura, premiar o melhor miniconto publicado na Amazon. O concurso foi promovido pelo GLOBO em parceria com a plataforma digital e com apoio da Samsung.

O angariado foi “Sombras”, disponível para compra aqui.

Matheus era a nossa referência, o único que lia partituras. Com seus solos, as canções ganhavam beleza e potência. Tocar na garagem de Matheus com a banda, fechar os olhos e sentir a música, distinguir o som de cada instrumento e ver o modo como eles se combinavam em perfeito equilíbrio era o meu modo de sentir o que outras pessoas sentem em uma igreja, em um terreiro ou em um templo budista. O sentimento oceânico, a alegria plena, o reino de Deus.

Sabino acertou, sobretudo, no tema. Vivemos um momento delicado em termos de religião no Brasil; o cristianismo está abalado, a contestação se intensificou. O conto reflete isso, e fala direto aos mais contestadores: os jovens. Ponto extremamente positivo porque é um problema contemporâneo e, hoje, intrínseco à sociedade brasileira.

Acertou também na maioria das metáforas (associar Deus a uma história infantil, o gigante do João, foi uma jogada exemplar. Esse trecho, por mim, valia um conto por si) e não escorregou em rodeios, evitando converter o texto para um lirismo enfadonho.

Captou bem a essência de seu público-alvo inserindo um cotidiano familiar e uma frustração comum (o sonho interrompido), além, claro, do bônus (embora clichê) “banda de rock = música do capeta”. Também foi sensível ao tratar, enquanto contesta seu papel, a necessidade da religião. Equilibrou os dois, oferecendo reflexões que poderiam ser mais aprofundadas havendo maior limite de caracteres.

O título associa-se à clássica anedota de Platão, “O mito da caverna”. Batido, mas bem desenvolvido, permeia a narrativa através da relação do protagonista com seu avô – uma escolha que reforça a questão, levantada por Sabino, da influência da família na religiosidade dos jovens.

No todo, e considerando que o meu problema com o texto é puramente pessoal, entende-se o porquê de ter ganhado o concurso.

Disponível para leitura gratuita no site oficial d’O Globo.

ARTIGO — Sobre a originalidade na Literatura

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Esses dias eu cismei com odaliscas.

Google > odalisca > pesquisar.

Fantasias eróticas.

Google > odalisca pintura > pesquisar.

Mulheres deitadas, nuas ou seminuas, ora acompanhadas de um narguilé, ora de escravos, aquela pose tão marcante que podemos chamá-la “pose de odalisca”, às vezes cercadas por luxo, às vezes pelas paredes frias do palácio.

Iguais, numa olhada rápida, com exceção de uma e outra mais ousadas, de pé.

Numa análise mais atenciosa, suas diferenças gritam.

A “Odalisque” de Hayez está bem longe de “Odalisque” de Delacroix. A de Ingres entedia-se com a suntuosidade, a de Lefebvre com a solidão. A de Matisse cobre as partes baixas, a de Boucher, os seios. “Olympia” é soberana, mas não mais que a Vênus diante do espelho.

Certamente sabiam, todos eles, que havia uma grande quantidade de odaliscas a serem pintadas. Pergunto-me se lhes perturbou o clichê.

Não podemos dizer, no entanto, que não eram originais.

Assim a Literatura.

Escritores, todos eles, pintando odaliscas, variando posições, expressões, cores e cortinas, se-não-tiver-isso-não-é-odalisca, se-fizer-assim-é-cópia.

“Será que alguém já fez uma odalisca tocando guitarra?”, pergunta-se o pós-modernista.

Google > odalisca guitarra pintura> pesquisar.

ARTIGO — Da flaubertização de parágrafos

Diz-se por aí que Flaubert era um maníaco perfeccionista; passava horas (com ou sem hiperbolismo, jamais saberemos) revisando seus parágrafos, e não ia para o seguinte enquanto aquele em que trabalhava não estivesse o mais próximo possível do que ele considerava perfeito.

Quando li isso, foi como se me dessem um abraço. Melhor: foi como se Flaubert me desse um abraço. Em um ambiente no qual me dirigem sempre a mesma dica – “jogue tudo no papel, depois lapide” – me sentia solitária, improdutiva, cismada, ansiosa por ser incapaz de seguir adiante sabendo que aquela frase horrorosamente composta está ali, no meu parágrafo, e que mais tarde tornarei a ela porque sei que ela é horrível. Por que não ajeitar agora? Por que não interromper a vomitação do texto para deixar tudo bonitinho, e dar continuidade com a consciência tranquila? Não é muito mais prazeroso?

Diziam, ainda, que por essa mania Flaubert levava muitíssimo mais tempo que seus companheiros (de época? De ofício?) para terminar um livro, um texto, um epitáfio. As justificativas dos que bradam “escreva primeiro, ajeite depois”, com seus cartazes escritos em letras vermelhas, capitulares, quase ameaçadoras, são as mesmas: “assim você trava sua produção”, “assim você não termina nunca”, “assim você só vai escrever um livro a cada 20 anos”.

É verdade. Eu demoro cerca de 6 horas (marcadas) para escrever menos de mil palavras. Ontem mesmo, tirei a noite para trabalhar em um texto, das 21:00 à meia-noite, e embora já estivesse certa do que ia colocar, e como, escrevi não mais que 200 palavras.

A questão é que esse método (carinhosamente, e criativamente, apelidado por mim de “flaubertizar”) é a maior parte do prazer de se fazer Literatura. Saborear individualmente cada palavra, lustrar os parágrafos como se fosse prataria, demorar-se no que se quer dizer, avaliar se há algo melhor a ser dito, e dizê-lo de modo a expressar exatamente (ou perto o bastante) da forma como foi pensado. E isso no rascunho, na segunda versão, na terceira, na quarta, na quinta… O casamento entre conteúdo é forma é o único que eu aprovo. Divorciá-los seria de uma crueldade imensa. Além do mais, acostuma o cérebro a pensar através das palavras, não só das imagens.

Isso, segundo moi, é claro, é imergir no texto. É imergir nas sensações. É imergir em si. Um texto escrito “de qualquer jeito” para “ser arrumado depois” é um texto pobre. Pode ser enriquecido nessa segunda visita – como quando nos mudamos e a princípio não há a preocupação de pôr tudo no lugar, mas depois reorganizamos de acordo com nossas intenções. Não significa que quem siga esse método é mau escritor. Contudo, eu acredito que o esmero de Flaubert reflita o simplório prazer de estudar cada combinação de palavras para tecer, da melhor forma, uma história, como testar as tintas numa paleta para encontrar o melhor tom, e só então passá-lo ao quadro.

A ironia reside no fato de que Flaubert podia não fazer nada disso. E basta essa dúvida para refutar meus argumentos…