RESENHA — Carol, Todd Haynes

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 5/5

Discorri longamente sobre o livro que deu origem a “Carol” aqui. Ainda assim julgo necessário escrever um artigo só para o filme, muito embora pouco reste para dizer a respeito da história. Trata-se de um caso em que a cinematografia fez toda a diferença e distanciou completamente as duas experiências – ambas excepcionalmente positivas -, o que mostra não só o poder da perspectiva sobre uma narrativa que foca na desconstrução de um personagem, como também a complementaridade das quinta e sétima artes. Se por um lado Patricia Highsmith escreveu uma obra doce e impactante sobre uma jovem se descobrindo através da paixão por uma mulher mais velha, o trio Todd Haynes-Phyllis Nagy-Ed Lachman reconstruiu o romance através dos contrastes, dando mais solidez a Carol, sem, contudo, abrir mão do torpor em que se encontrava Therese. O resultado disso é um filme que passeia por cenas carregadas de distorções oníricas, sentimentos que se estendem ao espectador por meio da trilha sonora e, claro, duas exímias performances que se chocam ao mesmo tempo em se equilibram. Continuar lendo

RESENHA — O Preço do Sal, de Patricia Highsmith

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 4,5/5

Essa não será uma resenha crítica. Não primordialmente. Culpa do livro, não minha, porque se o peguei disposta a tecer uma análise aprofundada a respeito da narrativa e da construção da história como um todo, me descobri em um êxtase que tornou os detalhes incômodos em meros apontamentos irrelevantes.

Acontece que eu nunca tinha ouvido falar de O preço do Sal até o ano passado, quando saiu a notícia de que Todd Haynes iria adaptá-lo para o Cinema com Cate Blanchett num dos papéis principais. Como onde Cate vai, eu vou, desenvolvi uma obsessão pelo filme ainda na pré-produção. Claro que o tema lésbico também foi um grande contribuinte – a maior parte de minhas histórias aborda esse aspecto –, mas quanto mais eu conhecia da história através da adaptação, mais eu queria conhecer a versão original.

Pouco depois do lançamento do filme em Cannes, resolvi providenciar um arquivo para degustar os primeiros capítulos antes de adquirir oficialmente o livro. Baixei uma versão traduzida para o espanhol, e, ao me familiarizar com a história, comprei o e-book em inglês. Pretendo comprar a edição física também, e aqui está o veredito dessa resenha, nem é preciso ir adiante se não quiser: como boa leitora fetichista, eu não me conformo em não ter bons livros em mãos.

Delongas devidamente feitas, à sinopse:

Em plenos anos 50, a escritora Patricia Highsmith lançou Carol – primeiro romance que aborda uma relação amorosa entre mulheres com um final feliz. O polêmico livro foi publicado na época como The Price of Salt, sob o pseudônimo de Claire Morgan.

Na história, Therese Belivet trabalha como vendedora na seção de bonecas de uma loja de departamentos. O emprego funciona como um bico para juntar dinheiro: o que ela de fato quer é construir uma carreira como cenógrafa de teatro. É época de Natal em Nova York, e a loja está lotada. Em meio a tantos rostos desconhecidos, Therese fica hipnotizada ao ver uma distinta cliente se aproximar. É Carol. “Alta e clara, com um longo corpo elegante dentro do casaco de pele folgado (…), seus olhos eram cinzentos, claros e, no entanto, dominadores, como luz ou fogo”.

Assim começa o romance entre a jovem Therese e Carol – recém-separada e mãe de uma filha –, um amor repentino e fatal, que se transforma em uma constante troca de experiências. Mas, numa tentativa de escapar dos olhares reprovadores dos amigos e familiares, elas saem de carro em uma viagem pelos Estados Unidos. Essa aventura acaba se tornando perigosa quando elas percebem que estão sendo seguidas por um detetive.

O fato de ter sido escrito em uma época extremamente recatada confere o bônus da experiência ao drama de Patricia Highsmith. Valendo-se ao máximo do “show, don’t tell”, observamos o desenrolar dos acontecimentos sob a perspectiva indireta de Therese, uma jovem retraída e insegura que nos apresenta Carol como seu oposto – inabalável.

A narração é espontânea e ágil. A autora não se demora em cenas aparentemente inúteis, faz a transição de acordo com o que quer contar e só. A princípio, estranhei esse estilo. Os cortes são rápidos, como nos filmes que precisam caber em duas horas e por isso só passa o que for fundamental. Aliás, foi difícil separar o visual do trabalho de Haynes do que me era dado por Highsmith, mas não acredito que isso conte como ponto negativo – pelo contrário. Foi um casamento esplêndido, tal que eu aconselharia você que não leu a ir atrás das fotos antes de pegar no livro, e você, que leu, faça o mesmo antes de reler.

Ao mesmo tempo em que me perturbava, no entanto, eu achava extremamente ousado esse recurso. Não que os demais livros que li teçam situações inúteis, mas foi minha primeira experiência com algo tão dinâmico. Isso é bom, isso é ruim, vai do gosto do freguês.

Para mim, foi quase hipnótico. Como fitar atentamente o ir e vir dos carros pela janela. As páginas passam, os acontecimentos passam, as sensações passam; sem que se perceba, lá estão, borboleteando em seu inconsciente. Embora haja um toque lírico aqui e ali, não é a preocupação principal de Highsmith florear o que já é floreado. Em outras palavras, ela não vê necessidade em estender o amor a outros devaneios. O sentimento, por si, já é um.

Dessa forma, quando apresentados, os momentos mais poéticos são o biscoitinho que acompanha o café.

— What a strange girl you are.

— Why?

— Flung out of space. – Carol said.

O distanciamento que há entre o leitor e Therese, proporcionado pela narrativa em 3ª pessoa, e não 1ª, permite que enxerguemos um panorama um pouco maior do que o da personagem, no entanto Highsmith cuida para que as informações sejam filtradas por sua protagonista antes de chegar a nós. Assim, tendemos a pensar como Therese, manipulados por sua compreensão dos fatos, nos encantando com o que a encanta e nos frustrando com o que a frustra.

Dessa forma, acreditamos que Carol é, como descrita, impermeável, segura de si, dominadora. Com ou sem Cate Blanchett na cabeça, a personagem se faz tão presente que é quase palpável – o que é curioso, porque, dado o foco narrativo, sabemos tão pouco dela quanto Therese.

Aí que a parede entre o leitor e a obra se faz útil.

Carol é tão insegura e cheia de dúvidas quanto sua jovem amante, mas tem, seja pela maturidade, seja pela índole, a capacidade de disfarçar suas emoções. Seu amor pela filha, Rindy, em cheque com o amor por Therese, acaba por revelar esse lado mais frágil e é uma evolução tão natural e coerente, quase sutil, que mal dá para determinar quando essa ruptura entre o que se sente e o que se mostra acontece.

Ao mesmo tempo, vemos a Therese aparentemente inocente projetar em Carol seus próprios defeitos, e aí fica claro que não se tratam de duas pessoas tão diferentes assim. Ao chamá-la egoísta, Therese reflete seu egoísmo; ao julgá-la insensível, Therese se mostra incompreensiva; ao avaliar os possíveis receios e desejos de Carol, Therese revela os seus.

A impressão que temos é de que Carol tenta controlar o mundo ao seu redor sendo do jeito que é, mas Highsmith sutilmente traça o paralelo entre essa interpretação de Therese e seu comportamento. Quando vai empinar pipa com Richard, seu namorado, por exemplo, ela teme que a pipa voe alto demais e surta diante da ideia de não conseguir dominá-la.

A meu ver, é o caso de uma metáfora onde a pipa reflete os sentimentos que Therese não consegue controlar em relação a Carol, e isso a desespera.

Os demais elementos da história – a relação de Carol e Abby, os trâmites do divórcio com Harge, os homens renegados por Therese – apenas endossam a questão principal que é a delicadeza de um relacionamento desse tipo nos Estados Unidos da década de 50. A tensão do pós-guerra, a vontade de arrumar um mundo bagunçado pelos conflitos físicos e ideológicos, o moralismo que nasceu disso… O background está ali, sem que precise ser apontado.

E é aí que Highsmith inova ao conceder um final feliz ao casal.

Confesso que ele não me agradou tanto – esperava um drama mais hollywoodiano, talvez? – e que a inserção de Genevieve na narrativa me pareceu um tanto forçada – mas eu leria se houvesse um spin-off com ela, porque é uma personagem que me chamou a atenção. Contudo, é singelo, doce e deixa uma sensação de alívio. Ou melhor, deixa uma sensação de “quero mais”.

Tenha sido proposital a esperança intrínseca a esse fechamento ou não, O Preço do Sal rapidamente se tornou um clássico da dita “literatura LGBT”, que retribuiu a gentileza de não se deparar com mais uma tragédia transformando-o em best-seller. Por outro lado, seria demasiadamente reducionista atribuir o mérito a isso, apenas. O livro é daqueles que se aproveitam de sua sutileza para ir fundo no leitor desavisado, e de suas entrelinhas para servir aos mais atentos. Extremamente sensível e com figuras marcantes conduzindo a história, é certo que não será lido só uma vez.

Eu, ao menos, pretendo guardar a versão física debaixo do travesseiro.