RESENHA — Carol, Todd Haynes

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 5/5

Discorri longamente sobre o livro que deu origem a “Carol” aqui. Ainda assim julgo necessário escrever um artigo só para o filme, muito embora pouco reste para dizer a respeito da história. Trata-se de um caso em que a cinematografia fez toda a diferença e distanciou completamente as duas experiências – ambas excepcionalmente positivas -, o que mostra não só o poder da perspectiva sobre uma narrativa que foca na desconstrução de um personagem, como também a complementaridade das quinta e sétima artes. Se por um lado Patricia Highsmith escreveu uma obra doce e impactante sobre uma jovem se descobrindo através da paixão por uma mulher mais velha, o trio Todd Haynes-Phyllis Nagy-Ed Lachman reconstruiu o romance através dos contrastes, dando mais solidez a Carol, sem, contudo, abrir mão do torpor em que se encontrava Therese. O resultado disso é um filme que passeia por cenas carregadas de distorções oníricas, sentimentos que se estendem ao espectador por meio da trilha sonora e, claro, duas exímias performances que se chocam ao mesmo tempo em se equilibram. Continuar lendo

RESENHA — The Duke of Burgundy, P. Strickland

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 5/5

OBS: o texto a seguir contém alguns spoilers – nada que interfira na experiência, mas não tive como me esquivar deles; 90% do que é mencionado está no começo do filme.

O que difere uma obra de arte das outras com pretensões artísticas, ou das declaradamente alheias a tal propósito, é a gratuidade. Muito embora se possa dizer que nada é gratuito, tudo possui uma razão para existir – e, no caso da arte, tão subjetiva, para ser projetado –, é possível identificar, nas peças que nos são oferecidas, maior ou menor complexidade e maior ou menor densidade, isto é, como os elementos se conectam e quão exigentes são em sua interpretação.

Como a Literatura, o Cinema, quando empenhado em produzir algo que fuja do lugar-comum, precisa se apoiar muito mais na confiança de um público seleto e perspicaz o bastante para absorver tudo o que será transmitido do que no mero apelo de uma história “diferente”. Normalmente, isso significa ser fadado ao clamor dos críticos e à rejeição da massa. “The Duke of Burgundy” – que sequer chegou a ser traduzido quando veio parar no Brasil, graças à Netflix – é mais um desses casos; mesmo com alguns prêmios em sua conta (o International Cinephile Society Awards, por Melhor Filme, e o Grand Jury Prize por Melhor Narrativa no Philadelphia Film Festival, por exemplo), é underground o suficiente para que muito pouco se tenha ouvido falar dele à época de seu lançamento (fevereiro de 2015, no Reino Unido), que fará agora. Continuar lendo