CONTO — O Maestro e a Puta

 

O MAESTRO E A PUTA

Por: Anna Carolina Rizzon

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1.
23:02h.
A puta chamada Hailey dá cinco batidinhas na porta da frente.

2.
— Dona B.?
— Eu mesma.
— Como vai? Continuar lendo

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CONTO — Intimidade

INT

— Ou, Gustavo, tem uma barata ali.

— Mata.

— Não, porra, tô pelada, levanta aê.

— Tô ocupado.

— Larga de ser babaca.

— Tô ocupado, caralho.

— Ocupado com o quê?

— Com o meu pau, tô me masturbando.

— Ah, vai se foder, levanta e mata logo essa vagabunda!

— Deixa eu gozar.

— Ela vai sair do meu campo de visão.

— Tô quase, guenta aí.

— Essa porra vai voar, Gustavo, anda logo com isso! Tá rindo de quê? Continuar lendo

RESENHA — Sombras, Eduardo Sabino

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 4,5/5

Eduardo Sabino foi o vencedor do concurso Brasil Em Prosa, o qual visava, através de avaliação por uma bancada de jurados envolvidos com Literatura, premiar o melhor miniconto publicado na Amazon. O concurso foi promovido pelo GLOBO em parceria com a plataforma digital e com apoio da Samsung.

O angariado foi “Sombras”, disponível para compra aqui.

Matheus era a nossa referência, o único que lia partituras. Com seus solos, as canções ganhavam beleza e potência. Tocar na garagem de Matheus com a banda, fechar os olhos e sentir a música, distinguir o som de cada instrumento e ver o modo como eles se combinavam em perfeito equilíbrio era o meu modo de sentir o que outras pessoas sentem em uma igreja, em um terreiro ou em um templo budista. O sentimento oceânico, a alegria plena, o reino de Deus.

Sabino acertou, sobretudo, no tema. Vivemos um momento delicado em termos de religião no Brasil; o cristianismo está abalado, a contestação se intensificou. O conto reflete isso, e fala direto aos mais contestadores: os jovens. Ponto extremamente positivo porque é um problema contemporâneo e, hoje, intrínseco à sociedade brasileira.

Acertou também na maioria das metáforas (associar Deus a uma história infantil, o gigante do João, foi uma jogada exemplar. Esse trecho, por mim, valia um conto por si) e não escorregou em rodeios, evitando converter o texto para um lirismo enfadonho.

Captou bem a essência de seu público-alvo inserindo um cotidiano familiar e uma frustração comum (o sonho interrompido), além, claro, do bônus (embora clichê) “banda de rock = música do capeta”. Também foi sensível ao tratar, enquanto contesta seu papel, a necessidade da religião. Equilibrou os dois, oferecendo reflexões que poderiam ser mais aprofundadas havendo maior limite de caracteres.

O título associa-se à clássica anedota de Platão, “O mito da caverna”. Batido, mas bem desenvolvido, permeia a narrativa através da relação do protagonista com seu avô – uma escolha que reforça a questão, levantada por Sabino, da influência da família na religiosidade dos jovens.

No todo, e considerando que o meu problema com o texto é puramente pessoal, entende-se o porquê de ter ganhado o concurso.

Disponível para leitura gratuita no site oficial d’O Globo.

RESENHA — A Carta, de Camila Silvestre

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 5/5

Antes de me estender em pontos específicos, devo dizer que valorizo imensamente a identidade nacional na Literatura e que foi isso que me atraiu no conto da Camila. Como é algo que eu muitas vezes falho em reproduzir, admiro a capacidade da autora de explorá-lo tão bem, trazendo algo novo, mas enraizado na abordagem clássica dos grandes autores brasileiros.

Trata-se de um conto sobre a migração de um jovem para São Paulo em busca do seu amor de infância, a Pretinha, e todas as consequências dessa decisão.

A autenticidade do texto, associada a um cotidiano próximo e muito bem desenvolvido, nos oferece algo de fácil ingestão e, principalmente, digestão. A relação do protagonista com a Pretinha não se resume à sua posição social, embora seja influenciada por ela. A Camila soube equilibrar muito bem esses dois aspectos; trata-se de um personagem de classe desfavorecida, trabalhador e apaixonado. A identificação é instantânea, mas não chega a ser óbvia ou clichê. Daí seu maior mérito: a forma como as informações são apresentadas é repleta de metáforas e sacadas inovadoras.

[…] a cidade já o havia engolido, sem nenhuma preocupação em fazer-lhe sala. Tudo bem. Ele não vinha de visita.

Ela também não se estende em moralismos, preferindo deixar o aspecto sociológico por conta do leitor. Ela expõe a crueldade e crueza da vida do seu protagonista e isso basta para que nos consolidemos (ou não) dele. É um texto simples, direto e comovente.

Não tinha registro, ganhava pouco, mas tinha suas alegrias. Era, por exemplo, o melhor fazedor de troco de que se podia ouvir falar. Tinha orgulho em pegar o caixa no fim da tarde, vazio de moedas, notas graúdas que não lhe serviam de nada e, dali ao fim da noite, quando o bar finalmente fechava, quase fazer nascer uma fonte dos desejos.

Destaca-se também a linguagem ampla e a habilidade em expressar o que se quer dizer, isto é, tudo tem um propósito, nada é gratuito. Cada termo possui sua própria essência, o que demonstra que a autora se preocupou com a escolha de palavras e, principalmente, com a de sentimentos. “Fazia calor na plataforma, não o calor vivo de sua terra” é um bom exemplo. O tempo inteiro ela estabelece relações entre a mudança do protagonista para uma cidade-monstro, por amor, e a nostalgia que isso implicou. Reflete, assim, um sentimento muito familiar a nós: a dúvida.

Essa dúvida se estende à Pretinha, à vida que ele levou por sua conta e a vida que levava antes dela. A cidade, portanto, também é uma metáfora. A mudança é uma metáfora. E a carta, obviamente. O dobrar e desdobrar, expondo sua ansiedade, sua incerteza, seu possível arrependimento, mas também certa gratidão e apego à ideia de ter sido tão ousado… Ao jogá-la fora ele não só se desfaz do papel, mas do seu antigo eu, da Pretinha (talvez?), dos receios. A evolução do personagem é clara, dentro e fora da narrativa, o que nos leva ao último ponto.

É um texto que vai além do texto. É um texto que, embora pareça despretensioso, a princípio, possui diversas camadas. É uma história de amor, é uma crítica ao comportamento humano, é o reflexo de uma realidade que tá logo ali, é uma homenagem aos “Pretinhos” e às “Pretinhas”. Sem dúvida, algo que não termina ao fim da leitura.

Link para o conto: https://www.wattpad.com/77281926-a-carta