CRÔNICA — São Paulo, s.f.:

Poucas foram as vezes em que ultrapassei os 90 km que separam Teresópolis do Rio de Janeiro. Raramente visito a capital. Tenho melindres com as grandes cidades. Não há nada mais assustador que as possibilidades infinitas. Quando o faço, e quando vou além, é buscando enervar as partes letargiadas pela vidinha bucólica que levo na serra, ou atrás de nova paz, uma que já não encontro aqui, e neste caso meu destino não pode, de forma alguma, ser simplório.

Escolhi São Paulo, ou São Paulo me escolheu (embora seja difícil acreditar nisso. O que uma cidade tão magnânima poderia querer com alguém que sequer sabe se equilibrar no metrô?). Minhas expectativas eram baixas e associadas ao medo crônico de ser engolida. São Paulo, essa baleia azul; eu, um krill. As primeiras quatro horas que nos separavam foram gastas numa posição só: testa contra o vidro de uma janela que eu não sabia abrir, pernas esticadas, ocupando os pouquíssimos metros entre um banco e outro, braços cruzados apertando a bolsa contra a barriga, fones encaixados de tal modo nas orelhas que parecem uma extensão delas, as costas tão erroneamente quanto possível apoiadas na poltrona. O saldo disso tudo foi uma dor incômoda na lombar, nos joelhos e no pescoço quando o ônibus fez sua parada em Resende e me tirou do pseudo-transe em que me encontrava.

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