CRÔNICA — São Paulo, s.f.:

Poucas foram as vezes em que ultrapassei os 90 km que separam Teresópolis do Rio de Janeiro. Raramente visito a capital. Tenho melindres com as grandes cidades. Não há nada mais assustador que as possibilidades infinitas. Quando o faço, e quando vou além, é buscando enervar as partes letargiadas pela vidinha bucólica que levo na serra, ou atrás de nova paz, uma que já não encontro aqui, e neste caso meu destino não pode, de forma alguma, ser simplório.

Escolhi São Paulo, ou São Paulo me escolheu (embora seja difícil acreditar nisso. O que uma cidade tão magnânima poderia querer com alguém que sequer sabe se equilibrar no metrô?). Minhas expectativas eram baixas e associadas ao medo crônico de ser engolida. São Paulo, essa baleia azul; eu, um krill. As primeiras quatro horas que nos separavam foram gastas numa posição só: testa contra o vidro de uma janela que eu não sabia abrir, pernas esticadas, ocupando os pouquíssimos metros entre um banco e outro, braços cruzados apertando a bolsa contra a barriga, fones encaixados de tal modo nas orelhas que parecem uma extensão delas, as costas tão erroneamente quanto possível apoiadas na poltrona. O saldo disso tudo foi uma dor incômoda na lombar, nos joelhos e no pescoço quando o ônibus fez sua parada em Resende e me tirou do pseudo-transe em que me encontrava.

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ARTIGO — Da flaubertização de parágrafos

Diz-se por aí que Flaubert era um maníaco perfeccionista; passava horas (com ou sem hiperbolismo, jamais saberemos) revisando seus parágrafos, e não ia para o seguinte enquanto aquele em que trabalhava não estivesse o mais próximo possível do que ele considerava perfeito.

Quando li isso, foi como se me dessem um abraço. Melhor: foi como se Flaubert me desse um abraço. Em um ambiente no qual me dirigem sempre a mesma dica – “jogue tudo no papel, depois lapide” – me sentia solitária, improdutiva, cismada, ansiosa por ser incapaz de seguir adiante sabendo que aquela frase horrorosamente composta está ali, no meu parágrafo, e que mais tarde tornarei a ela porque sei que ela é horrível. Por que não ajeitar agora? Por que não interromper a vomitação do texto para deixar tudo bonitinho, e dar continuidade com a consciência tranquila? Não é muito mais prazeroso?

Diziam, ainda, que por essa mania Flaubert levava muitíssimo mais tempo que seus companheiros (de época? De ofício?) para terminar um livro, um texto, um epitáfio. As justificativas dos que bradam “escreva primeiro, ajeite depois”, com seus cartazes escritos em letras vermelhas, capitulares, quase ameaçadoras, são as mesmas: “assim você trava sua produção”, “assim você não termina nunca”, “assim você só vai escrever um livro a cada 20 anos”.

É verdade. Eu demoro cerca de 6 horas (marcadas) para escrever menos de mil palavras. Ontem mesmo, tirei a noite para trabalhar em um texto, das 21:00 à meia-noite, e embora já estivesse certa do que ia colocar, e como, escrevi não mais que 200 palavras.

A questão é que esse método (carinhosamente, e criativamente, apelidado por mim de “flaubertizar”) é a maior parte do prazer de se fazer Literatura. Saborear individualmente cada palavra, lustrar os parágrafos como se fosse prataria, demorar-se no que se quer dizer, avaliar se há algo melhor a ser dito, e dizê-lo de modo a expressar exatamente (ou perto o bastante) da forma como foi pensado. E isso no rascunho, na segunda versão, na terceira, na quarta, na quinta… O casamento entre conteúdo é forma é o único que eu aprovo. Divorciá-los seria de uma crueldade imensa. Além do mais, acostuma o cérebro a pensar através das palavras, não só das imagens.

Isso, segundo moi, é claro, é imergir no texto. É imergir nas sensações. É imergir em si. Um texto escrito “de qualquer jeito” para “ser arrumado depois” é um texto pobre. Pode ser enriquecido nessa segunda visita – como quando nos mudamos e a princípio não há a preocupação de pôr tudo no lugar, mas depois reorganizamos de acordo com nossas intenções. Não significa que quem siga esse método é mau escritor. Contudo, eu acredito que o esmero de Flaubert reflita o simplório prazer de estudar cada combinação de palavras para tecer, da melhor forma, uma história, como testar as tintas numa paleta para encontrar o melhor tom, e só então passá-lo ao quadro.

A ironia reside no fato de que Flaubert podia não fazer nada disso. E basta essa dúvida para refutar meus argumentos…

ARTIGO — Plantando bananeira no bananal

Porque eu não consigo desenvolver uma ideia sem ter aquela voz rouca soprando no meu ouvido que ela é péssima e não vai dar em nada, acabei esmiuçando uma história que já caminha para ser das favoritas que formulei e constatar que sim, eu ainda reproduzo muito mais do que crio.

“Ah, mas isso não é tão ruim, a mente humana é incapaz de criar, no sentido literal; ela não inventa as coisas do nada, ela adapta informações.”

Certo, aí é que está o problema, amiguinho.

Eu consumo um percentual de material estrangeiro absurdamente maior do que o material nacional. Seja ficção ou não-ficção. Desde novinha eu achava muitíssimo mais legal estudar História Geral, pois “História do Brasil é muito chata, aqui não aconteceu nada de interessante”. E, de certa forma, isso se perpetua, por mais que a maturidade esteja me propiciando a amplitude do pensamento.

O primeiro lampejo de um drama despretensioso, que poderia se passar em qualquer época, teve como cenário a Alemanha Nazista.

“Ora, que mal há nisso? Você curte a Segunda Guerra Mundial. Você e uma caçamba de gente. É natural.”

Pois é, eu e uma caçamba de gente. Uma caçamba bem grande. Mas a problemática reside no fato de que minha proposta era focar o drama no relacionamento entre duas personagens, de modo que a Segunda Guerra seria apenas o meu pano de fundo.

“Melhor ainda, é só um detalhe”.

Mas quando seu cérebro elabora detalhes que sempre se voltam primeiro para o exterior, isso não é um sinal de que tem alguma coisa errada?

Ok, se a Segunda Guerra é “só” um background, não faria diferença a história se passar no Brasil ditatorial, nos tempos de Revolução Constitucionalista, no Primeiro Reinado, em 1972 ou, sei lá, ontem?

No momento, não, pois a ideia se desenvolveu de tal forma que depende do drama judeu, de Sachsenhausen, da SS e da ideologia enraizada na Alemanha da época. Agora, na altura em que se encontra, ela se apóia nesses fatos, e mudá-los seria despi-los de uma indumentária que lhe serve perfeitamente.

Entretanto, ainda é um pouco triste constatar que me foi preferível comprar as roupas em lugar de costurá-las.

Adoraria pensar que não sou obrigada a “gostar” da história do meu país. Para fins de escrita exageradamente dramática, como a minha, é realmente mais funcional usar aquelas terras massacradas por bombas e eugenia. Dá mais “pano pra manga”, para usar uma expressão nossa.

Mas seria deliberadamente imbecil se acreditasse nisso. Oh, sim, há material fabuloso sobre a condição dos judeus; “O Diário de Anne Frank”, “A Menina que Roubava Livros”, “O Pianista”, “O Leitor”, “A Lista de Schindler” — todos são alguns dos meus filmes e livros favoritos.

Da mesma forma, é de uma pobreza criativa enorme enxergar tragédia e drama onde é certo que há tragédia e drama. A gente sabe disso. Boa parte da sua educação te mostrou isso — faz parte da história do mundo, você é incapaz de viver sem saber quem é Hitler e o que foi o Holocausto. É quase como aprender a falar e andar.

Eu posso até me convencer de que posso trazer uma novidade, que não há fonte inesgotável. Nem por isso deixo de torcer o nariz. Vá lá, minha filha, ser mais uma banana no bananal. Com sorte, farão um bolo contigo, e durará mais do que cinco minutos.