RESENHA — Acqua Toffana, de Patrícia Melo

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 4,5/5

Pode-se viver tranquilamente sem amor, mas não sem ódio.

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É com essa frase que Patrícia Melo resume ambas as novelas contidas em seu primeiro livro – cujo título, sugestivo, é homônimo ao de um veneno da Renascença, famoso por sua discrição e pelas mortes lentas e dolorosas, mas principalmente por se tratar de uma arma  popular entre mulheres que queriam se livrar de seus maridos. Aliás, esse é exatamente o plot da primeira história: uma mulher, desesperada, tenta convencer um delegado a prender seu esposo, quem ela acredita ser o assassino em série conhecido como ” estrangulador da Lapa”, mas sua narrativa ora mergulhada em delírio, ora numa certeza brutal, deixa tanto ele quanto nós com um pé atrás.

A personagem, uma autodeclarada nosofóbica, ansiosa e, por que não?, agorafóbica, descreve, com muitíssimos detalhes quando lhe convém, e pouquíssimos quando julga que a passagem é desinteressante, o caminho até sua conclusão e a decisão de recorrer à polícia. Rubão, o marido, um editor de programas de culinária, pouco a pouco perdeu o interesse nela, o que a deixou num estado depressivo e paranoico, culminando na suspeita de traição. Certo dia ela resolve segui-lo numa de suas “chamadas urgentes”, para flagrá-lo com outra mulher. Continuar lendo

CRÔNICA — São Paulo, s.f.:

Poucas foram as vezes em que ultrapassei os 90 km que separam Teresópolis do Rio de Janeiro. Raramente visito a capital. Tenho melindres com as grandes cidades. Não há nada mais assustador que as possibilidades infinitas. Quando o faço, e quando vou além, é buscando enervar as partes letargiadas pela vidinha bucólica que levo na serra, ou atrás de nova paz, uma que já não encontro aqui, e neste caso meu destino não pode, de forma alguma, ser simplório.

Escolhi São Paulo, ou São Paulo me escolheu (embora seja difícil acreditar nisso. O que uma cidade tão magnânima poderia querer com alguém que sequer sabe se equilibrar no metrô?). Minhas expectativas eram baixas e associadas ao medo crônico de ser engolida. São Paulo, essa baleia azul; eu, um krill. As primeiras quatro horas que nos separavam foram gastas numa posição só: testa contra o vidro de uma janela que eu não sabia abrir, pernas esticadas, ocupando os pouquíssimos metros entre um banco e outro, braços cruzados apertando a bolsa contra a barriga, fones encaixados de tal modo nas orelhas que parecem uma extensão delas, as costas tão erroneamente quanto possível apoiadas na poltrona. O saldo disso tudo foi uma dor incômoda na lombar, nos joelhos e no pescoço quando o ônibus fez sua parada em Resende e me tirou do pseudo-transe em que me encontrava.

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RESENHA — Alma Menina, de Camila Silvestre

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 4,5/5

Em seu primeiro livro, Camila Silvestre se propõe a cruzar fronteiras. Como o viajante que não sabe direito qual será seu próximo destino, atravessa, com cuidado e determinação, os meandros de sua obra na pele de uma personagem cuja alma livre está presa no corpo de uma jovem letargiada pela vidinha extremamente simplória que leva no interior de São Paulo. Isso resulta em um livro que mistura o romance com contos, realismo com fantasia, autora e obra, leitor e personagem, rompendo todas as barreiras que possam se interpor entre um e outro, formando uma realidade tão própria e, ao mesmo tempo, tão universal que deixa a sensação de, quando concluído, termos experimentado uma jornada para muito além do que nossa mente pode alcançar.

A sensibilidade ao traduzir uma situação comum de forma tão particular é a maior qualidade da Camila, como autora. “Alma Menina” é um livro metonímico, isto é, ao falar de Mari, fala por todos os que já se encontraram na delicada situação de ter a vida aparentemente arranjada, mas ansiar por outra coisa – algo que não se sabe, ao certo, o que é. E ao se colocar como a personagem, utilizando-se da narrativa em primeira pessoa, mas tomando o cuidado de conceder-lhe sua singularidade, sem torná-la uma reprodução de si própria, oferece, também, o conforto da compreensão e da confidência – uma amiga que desabafa a respeito das perturbações de sua vida. Continuar lendo

ARTIGO — De escritores e cozinheiros

Eu gosto muito de cozinhar. É uma atividade que me relaxa, especialmente se eu não tiver que lavar a louça depois. Não tenho pretensões maiores que fazer refeições gostosas para mim e para minha família, ou meus amigos. É o tipo de atividade bem altruísta. Quem curte cozinhar curte ver os outros saboreando seus pratos. Mesmo que sejam simples. Mesmo que seja um miojo — a satisfação do outro é quase tão grande quanto a sua.

Por isso uso os melhores ingredientes possíveis dentro do que estou disposta a fazer. Hoje, por exemplo, diante da necessidade de cozinhar um quebra-galho, preparei o infalível macarrão-com-molho-de-tomate. Ou quase. Diante da escassez de tomates em minha geladeira, e porque eu esqueci de comprar o molho semi-pronto, minha alternativa em 90% das vezes, tive que recorrer ao ketchup.

Triste, eu sei. Me incomodou o suficiente para que pedisse desculpas ao servi-lo. Continuar lendo

ARTIGO — Saramago Superstar

Não sei dizer quando ser escritor se tornou tão legal.

É bem verdade que o ofício carrega certo status. “Sou escritor”, e o interlocutor responde com um misto de admiração e pena. Te tem por excluído e genial.

Mas a admiração tá lá.

Só que hoje escritor tem fã. Não mais um séquito de indivíduos dispostos a provar por A + B que fulano disseca a sociedade como se as palavras fossem um bisturi, e sim um conglomerado de gente histérica que não admite haver, nesse mundão cibernético, quem não considere seu ídolo um bom autor.

Herança da cultura pop? Talvez. É difícil determinar sem cair em non sequitur.

Observa-se, no entanto, jovens ensandecidos querendo se tornar “o novo Stephen King”, “o novo Tolkien”, “a nova J. K. Rowling”, “o novo John Green”, “o novo George R. R. Martin”.

Curiosamente, todos autores massificados.

Ruins? Não.

Se formos estabelecer um parâmetro com toda a vastíssima gama de adeptos da sexta arte, contudo, tampouco são tão admiráveis quanto o seleto grupo que ninguém ousa tentar reproduzir — ou se comparar a.

A cultura pop é um movimento que atinge, essencialmente, jovens. Acostumados a gritar e sacudir os braços para as estrelas da música e de Hollywood, naturalmente transferiram o comportamento para aqueles escritores que cobrem um público semelhante.

Sem entrar nos méritos de qualidade literária, há quem se gabe e se alimente desse surto, e quem aspire uma carreira no ramo da escrita tão somente para ter uma arroba de fã-clube no Twitter.

Escrever não é chique.

Escrever é pop.

Evito categorizar o escritor como um cara que arrota intelectualidade. Nem sempre; um escritor pode, tão somente, mascarar sua ignorância de forma sublime. Quem não consegue fazer nem isso ainda, é aspirante.

Não é à toa que a Literatura reside entre as duas artes que mais dependem da mentira: o Teatro e o Cinema. Um bom escritor talvez seja um ator que dispensa o palco. Um forjador da própria imagem.

Desse modo, é possível entender que o processo pelo qual estamos passando. A figura que outrora apresentava-se como intocável porque assim se idealizava, em parte quer ser, agora, tão acessível quanto possível.

E bastando ter um computador e um editor de texto para se nomear um autor, com a difusão de cada vez mais plataformas de publicação digital e uma massa leitora pouco exigente, isso está ao alcance de qualquer um.

Só que não é tão legal assim, logo se vê.

Se eu pudesse deixar um conselho para quem quer ser um escritor, seria: desista.

Não é bonito. Não é romântico. É frustrante.

Diria, até, que a única parte legal de ser escritor é poder se colocar no mesmo grupo do Saramago.

“Sou escritor, o Saramago também.”

É… Talvez seja isso…

Esqueçam esse texto. Todos os escritores o são pelos aplausos dirigidos a outros escritores.

ARTIGO — Sobre a originalidade na Literatura

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Esses dias eu cismei com odaliscas.

Google > odalisca > pesquisar.

Fantasias eróticas.

Google > odalisca pintura > pesquisar.

Mulheres deitadas, nuas ou seminuas, ora acompanhadas de um narguilé, ora de escravos, aquela pose tão marcante que podemos chamá-la “pose de odalisca”, às vezes cercadas por luxo, às vezes pelas paredes frias do palácio.

Iguais, numa olhada rápida, com exceção de uma e outra mais ousadas, de pé.

Numa análise mais atenciosa, suas diferenças gritam.

A “Odalisque” de Hayez está bem longe de “Odalisque” de Delacroix. A de Ingres entedia-se com a suntuosidade, a de Lefebvre com a solidão. A de Matisse cobre as partes baixas, a de Boucher, os seios. “Olympia” é soberana, mas não mais que a Vênus diante do espelho.

Certamente sabiam, todos eles, que havia uma grande quantidade de odaliscas a serem pintadas. Pergunto-me se lhes perturbou o clichê.

Não podemos dizer, no entanto, que não eram originais.

Assim a Literatura.

Escritores, todos eles, pintando odaliscas, variando posições, expressões, cores e cortinas, se-não-tiver-isso-não-é-odalisca, se-fizer-assim-é-cópia.

“Será que alguém já fez uma odalisca tocando guitarra?”, pergunta-se o pós-modernista.

Google > odalisca guitarra pintura> pesquisar.

ARTIGO — Plantando bananeira no bananal

Porque eu não consigo desenvolver uma ideia sem ter aquela voz rouca soprando no meu ouvido que ela é péssima e não vai dar em nada, acabei esmiuçando uma história que já caminha para ser das favoritas que formulei e constatar que sim, eu ainda reproduzo muito mais do que crio.

“Ah, mas isso não é tão ruim, a mente humana é incapaz de criar, no sentido literal; ela não inventa as coisas do nada, ela adapta informações.”

Certo, aí é que está o problema, amiguinho.

Eu consumo um percentual de material estrangeiro absurdamente maior do que o material nacional. Seja ficção ou não-ficção. Desde novinha eu achava muitíssimo mais legal estudar História Geral, pois “História do Brasil é muito chata, aqui não aconteceu nada de interessante”. E, de certa forma, isso se perpetua, por mais que a maturidade esteja me propiciando a amplitude do pensamento.

O primeiro lampejo de um drama despretensioso, que poderia se passar em qualquer época, teve como cenário a Alemanha Nazista.

“Ora, que mal há nisso? Você curte a Segunda Guerra Mundial. Você e uma caçamba de gente. É natural.”

Pois é, eu e uma caçamba de gente. Uma caçamba bem grande. Mas a problemática reside no fato de que minha proposta era focar o drama no relacionamento entre duas personagens, de modo que a Segunda Guerra seria apenas o meu pano de fundo.

“Melhor ainda, é só um detalhe”.

Mas quando seu cérebro elabora detalhes que sempre se voltam primeiro para o exterior, isso não é um sinal de que tem alguma coisa errada?

Ok, se a Segunda Guerra é “só” um background, não faria diferença a história se passar no Brasil ditatorial, nos tempos de Revolução Constitucionalista, no Primeiro Reinado, em 1972 ou, sei lá, ontem?

No momento, não, pois a ideia se desenvolveu de tal forma que depende do drama judeu, de Sachsenhausen, da SS e da ideologia enraizada na Alemanha da época. Agora, na altura em que se encontra, ela se apóia nesses fatos, e mudá-los seria despi-los de uma indumentária que lhe serve perfeitamente.

Entretanto, ainda é um pouco triste constatar que me foi preferível comprar as roupas em lugar de costurá-las.

Adoraria pensar que não sou obrigada a “gostar” da história do meu país. Para fins de escrita exageradamente dramática, como a minha, é realmente mais funcional usar aquelas terras massacradas por bombas e eugenia. Dá mais “pano pra manga”, para usar uma expressão nossa.

Mas seria deliberadamente imbecil se acreditasse nisso. Oh, sim, há material fabuloso sobre a condição dos judeus; “O Diário de Anne Frank”, “A Menina que Roubava Livros”, “O Pianista”, “O Leitor”, “A Lista de Schindler” — todos são alguns dos meus filmes e livros favoritos.

Da mesma forma, é de uma pobreza criativa enorme enxergar tragédia e drama onde é certo que há tragédia e drama. A gente sabe disso. Boa parte da sua educação te mostrou isso — faz parte da história do mundo, você é incapaz de viver sem saber quem é Hitler e o que foi o Holocausto. É quase como aprender a falar e andar.

Eu posso até me convencer de que posso trazer uma novidade, que não há fonte inesgotável. Nem por isso deixo de torcer o nariz. Vá lá, minha filha, ser mais uma banana no bananal. Com sorte, farão um bolo contigo, e durará mais do que cinco minutos.