POESIA — Todos os cantos do mundo

No meu peito aportam todos os barcos do mundo,
aqui estão todos os cais,
todas as estações de trem,
todos que passam por mim
na ida e na volta
sem me esperar jamais.
Daqui partem todos os andarilhos,
ficam os meios, o resto se vai,
vira a esquina,
sacode a mão,
aqui se esvaziam todos os navios,
aqui estão todos os cais.

No meu peito cabem todas as dores do mundo
e todas as paixões que deixei de cultivar,
aqui cabem todos os que poderiam ser,
todas as ideias e todos os esboços,
os que foram
ficam pra trás.
Aqui os fantasmas e as concretudes,
às brumas tudo o que estava por acontecer.
Detêm-se os trens com todos os sonhos do mundo,
vão-se cheios
a Alcatraz. Continuar lendo

CONTO — Intimidade

INT

— Ou, Gustavo, tem uma barata ali.

— Mata.

— Não, porra, tô pelada, levanta aê.

— Tô ocupado.

— Larga de ser babaca.

— Tô ocupado, caralho.

— Ocupado com o quê?

— Com o meu pau, tô me masturbando.

— Ah, vai se foder, levanta e mata logo essa vagabunda!

— Deixa eu gozar.

— Ela vai sair do meu campo de visão.

— Tô quase, guenta aí.

— Essa porra vai voar, Gustavo, anda logo com isso! Tá rindo de quê? Continuar lendo

RESENHA — Alma Menina, de Camila Silvestre

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 4,5/5

Em seu primeiro livro, Camila Silvestre se propõe a cruzar fronteiras. Como o viajante que não sabe direito qual será seu próximo destino, atravessa, com cuidado e determinação, os meandros de sua obra na pele de uma personagem cuja alma livre está presa no corpo de uma jovem letargiada pela vidinha extremamente simplória que leva no interior de São Paulo. Isso resulta em um livro que mistura o romance com contos, realismo com fantasia, autora e obra, leitor e personagem, rompendo todas as barreiras que possam se interpor entre um e outro, formando uma realidade tão própria e, ao mesmo tempo, tão universal que deixa a sensação de, quando concluído, termos experimentado uma jornada para muito além do que nossa mente pode alcançar.

A sensibilidade ao traduzir uma situação comum de forma tão particular é a maior qualidade da Camila, como autora. “Alma Menina” é um livro metonímico, isto é, ao falar de Mari, fala por todos os que já se encontraram na delicada situação de ter a vida aparentemente arranjada, mas ansiar por outra coisa – algo que não se sabe, ao certo, o que é. E ao se colocar como a personagem, utilizando-se da narrativa em primeira pessoa, mas tomando o cuidado de conceder-lhe sua singularidade, sem torná-la uma reprodução de si própria, oferece, também, o conforto da compreensão e da confidência – uma amiga que desabafa a respeito das perturbações de sua vida. Continuar lendo

ARTIGO — De escritores e cozinheiros

Eu gosto muito de cozinhar. É uma atividade que me relaxa, especialmente se eu não tiver que lavar a louça depois. Não tenho pretensões maiores que fazer refeições gostosas para mim e para minha família, ou meus amigos. É o tipo de atividade bem altruísta. Quem curte cozinhar curte ver os outros saboreando seus pratos. Mesmo que sejam simples. Mesmo que seja um miojo — a satisfação do outro é quase tão grande quanto a sua.

Por isso uso os melhores ingredientes possíveis dentro do que estou disposta a fazer. Hoje, por exemplo, diante da necessidade de cozinhar um quebra-galho, preparei o infalível macarrão-com-molho-de-tomate. Ou quase. Diante da escassez de tomates em minha geladeira, e porque eu esqueci de comprar o molho semi-pronto, minha alternativa em 90% das vezes, tive que recorrer ao ketchup.

Triste, eu sei. Me incomodou o suficiente para que pedisse desculpas ao servi-lo. Continuar lendo

ARTIGO — Saramago Superstar

Não sei dizer quando ser escritor se tornou tão legal.

É bem verdade que o ofício carrega certo status. “Sou escritor”, e o interlocutor responde com um misto de admiração e pena. Te tem por excluído e genial.

Mas a admiração tá lá.

Só que hoje escritor tem fã. Não mais um séquito de indivíduos dispostos a provar por A + B que fulano disseca a sociedade como se as palavras fossem um bisturi, e sim um conglomerado de gente histérica que não admite haver, nesse mundão cibernético, quem não considere seu ídolo um bom autor.

Herança da cultura pop? Talvez. É difícil determinar sem cair em non sequitur.

Observa-se, no entanto, jovens ensandecidos querendo se tornar “o novo Stephen King”, “o novo Tolkien”, “a nova J. K. Rowling”, “o novo John Green”, “o novo George R. R. Martin”.

Curiosamente, todos autores massificados.

Ruins? Não.

Se formos estabelecer um parâmetro com toda a vastíssima gama de adeptos da sexta arte, contudo, tampouco são tão admiráveis quanto o seleto grupo que ninguém ousa tentar reproduzir — ou se comparar a.

A cultura pop é um movimento que atinge, essencialmente, jovens. Acostumados a gritar e sacudir os braços para as estrelas da música e de Hollywood, naturalmente transferiram o comportamento para aqueles escritores que cobrem um público semelhante.

Sem entrar nos méritos de qualidade literária, há quem se gabe e se alimente desse surto, e quem aspire uma carreira no ramo da escrita tão somente para ter uma arroba de fã-clube no Twitter.

Escrever não é chique.

Escrever é pop.

Evito categorizar o escritor como um cara que arrota intelectualidade. Nem sempre; um escritor pode, tão somente, mascarar sua ignorância de forma sublime. Quem não consegue fazer nem isso ainda, é aspirante.

Não é à toa que a Literatura reside entre as duas artes que mais dependem da mentira: o Teatro e o Cinema. Um bom escritor talvez seja um ator que dispensa o palco. Um forjador da própria imagem.

Desse modo, é possível entender que o processo pelo qual estamos passando. A figura que outrora apresentava-se como intocável porque assim se idealizava, em parte quer ser, agora, tão acessível quanto possível.

E bastando ter um computador e um editor de texto para se nomear um autor, com a difusão de cada vez mais plataformas de publicação digital e uma massa leitora pouco exigente, isso está ao alcance de qualquer um.

Só que não é tão legal assim, logo se vê.

Se eu pudesse deixar um conselho para quem quer ser um escritor, seria: desista.

Não é bonito. Não é romântico. É frustrante.

Diria, até, que a única parte legal de ser escritor é poder se colocar no mesmo grupo do Saramago.

“Sou escritor, o Saramago também.”

É… Talvez seja isso…

Esqueçam esse texto. Todos os escritores o são pelos aplausos dirigidos a outros escritores.

ARTIGO — Por que eu ainda procuro editoras

A primeira coisa que eu aprendi quando resolvi que seria escritora, lá nos primórdios de minha adolescência, foi que eu precisava arrumar logo um marido rico e velho, ou ganhar na Mega-Sena (ou arrumar um emprego decente, mas essa possibilidade é a mais remota).

Escrever e ganhar dinheiro são realidades tão dicotômicas que, presumo, deve haver alguma regra gramatical a respeito de nunca usar os dois termos na mesma frase.

Não, não estou considerando as exceções. J.K. Rowling tem dinheiro pra comprar a Inglaterra, mas enquanto Harry Potter era fecundado, sua realidade não era muito diferente da maioria dos autores. E, sejamos realistas, ninguém aqui (nem eu, que escrevo esse texto, nem você, que o lê) vai escrever o novo Harry Potter.

Sem drama.

Não vamos.

Conformados? Pois bem. Continuar lendo

ARTIGO — Sobre a originalidade na Literatura

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Esses dias eu cismei com odaliscas.

Google > odalisca > pesquisar.

Fantasias eróticas.

Google > odalisca pintura > pesquisar.

Mulheres deitadas, nuas ou seminuas, ora acompanhadas de um narguilé, ora de escravos, aquela pose tão marcante que podemos chamá-la “pose de odalisca”, às vezes cercadas por luxo, às vezes pelas paredes frias do palácio.

Iguais, numa olhada rápida, com exceção de uma e outra mais ousadas, de pé.

Numa análise mais atenciosa, suas diferenças gritam.

A “Odalisque” de Hayez está bem longe de “Odalisque” de Delacroix. A de Ingres entedia-se com a suntuosidade, a de Lefebvre com a solidão. A de Matisse cobre as partes baixas, a de Boucher, os seios. “Olympia” é soberana, mas não mais que a Vênus diante do espelho.

Certamente sabiam, todos eles, que havia uma grande quantidade de odaliscas a serem pintadas. Pergunto-me se lhes perturbou o clichê.

Não podemos dizer, no entanto, que não eram originais.

Assim a Literatura.

Escritores, todos eles, pintando odaliscas, variando posições, expressões, cores e cortinas, se-não-tiver-isso-não-é-odalisca, se-fizer-assim-é-cópia.

“Será que alguém já fez uma odalisca tocando guitarra?”, pergunta-se o pós-modernista.

Google > odalisca guitarra pintura> pesquisar.

RESENHA — A Carta, de Camila Silvestre

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 5/5

Antes de me estender em pontos específicos, devo dizer que valorizo imensamente a identidade nacional na Literatura e que foi isso que me atraiu no conto da Camila. Como é algo que eu muitas vezes falho em reproduzir, admiro a capacidade da autora de explorá-lo tão bem, trazendo algo novo, mas enraizado na abordagem clássica dos grandes autores brasileiros.

Trata-se de um conto sobre a migração de um jovem para São Paulo em busca do seu amor de infância, a Pretinha, e todas as consequências dessa decisão.

A autenticidade do texto, associada a um cotidiano próximo e muito bem desenvolvido, nos oferece algo de fácil ingestão e, principalmente, digestão. A relação do protagonista com a Pretinha não se resume à sua posição social, embora seja influenciada por ela. A Camila soube equilibrar muito bem esses dois aspectos; trata-se de um personagem de classe desfavorecida, trabalhador e apaixonado. A identificação é instantânea, mas não chega a ser óbvia ou clichê. Daí seu maior mérito: a forma como as informações são apresentadas é repleta de metáforas e sacadas inovadoras.

[…] a cidade já o havia engolido, sem nenhuma preocupação em fazer-lhe sala. Tudo bem. Ele não vinha de visita.

Ela também não se estende em moralismos, preferindo deixar o aspecto sociológico por conta do leitor. Ela expõe a crueldade e crueza da vida do seu protagonista e isso basta para que nos consolidemos (ou não) dele. É um texto simples, direto e comovente.

Não tinha registro, ganhava pouco, mas tinha suas alegrias. Era, por exemplo, o melhor fazedor de troco de que se podia ouvir falar. Tinha orgulho em pegar o caixa no fim da tarde, vazio de moedas, notas graúdas que não lhe serviam de nada e, dali ao fim da noite, quando o bar finalmente fechava, quase fazer nascer uma fonte dos desejos.

Destaca-se também a linguagem ampla e a habilidade em expressar o que se quer dizer, isto é, tudo tem um propósito, nada é gratuito. Cada termo possui sua própria essência, o que demonstra que a autora se preocupou com a escolha de palavras e, principalmente, com a de sentimentos. “Fazia calor na plataforma, não o calor vivo de sua terra” é um bom exemplo. O tempo inteiro ela estabelece relações entre a mudança do protagonista para uma cidade-monstro, por amor, e a nostalgia que isso implicou. Reflete, assim, um sentimento muito familiar a nós: a dúvida.

Essa dúvida se estende à Pretinha, à vida que ele levou por sua conta e a vida que levava antes dela. A cidade, portanto, também é uma metáfora. A mudança é uma metáfora. E a carta, obviamente. O dobrar e desdobrar, expondo sua ansiedade, sua incerteza, seu possível arrependimento, mas também certa gratidão e apego à ideia de ter sido tão ousado… Ao jogá-la fora ele não só se desfaz do papel, mas do seu antigo eu, da Pretinha (talvez?), dos receios. A evolução do personagem é clara, dentro e fora da narrativa, o que nos leva ao último ponto.

É um texto que vai além do texto. É um texto que, embora pareça despretensioso, a princípio, possui diversas camadas. É uma história de amor, é uma crítica ao comportamento humano, é o reflexo de uma realidade que tá logo ali, é uma homenagem aos “Pretinhos” e às “Pretinhas”. Sem dúvida, algo que não termina ao fim da leitura.

Link para o conto: https://www.wattpad.com/77281926-a-carta