POESIA — DO QUE É DEIXADO QUANDO MUDAMOS

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Foto: autoral

 

Parte I.

Um varal, um biquíni e um epitáfio.
Se esquecido, a falta vem antes;
se abandonado, não vem.
Por um momento senti como se exumasse os sonhos
cultivados num jardim que hoje é aterro.
Pensei no que deixaria para trás quando resolvesse mudar também,

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POESIA — A Morte de Sylvia, por Anne Sexton

 

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Anne Sexton

|A relação de Sylvia Plath e Anne Sexton era calcada no fascínio que ambas tinham pela autodestruição, expresso através dos poemas que não raramente intercambiavam entre si. Este a seguir foi escrito por Anne no dia 17 de fevereiro de 1963, seis dias após o suicídio de Sylvia.|

A MORTE DE SYLVIA, por Anne Sexton

para Sylvia Plath

tradução de Anna Carolina Rizzon

 

Oh, Sylvia, Sylvia,

com um caixão de pedras e colheres,

com duas crianças, dois meteoros

vagando à solta por uma saleta de jogos,

com sua boca enfiada no lençol,

na viga do telhado, na prece muda

(Sylvia, Sylvia,

para onde você foi

depois de me escrever

de Devonshire

sobre cultivar batatas

e criar abelhas?),

a quê você se prendeu,

como você se entregou? Continuar lendo

POESIA — Todos os cantos do mundo

No meu peito aportam todos os barcos do mundo,
aqui estão todos os cais,
todas as estações de trem,
todos que passam por mim
na ida e na volta
sem me esperar jamais.
Daqui partem todos os andarilhos,
ficam os meios, o resto se vai,
vira a esquina,
sacode a mão,
aqui se esvaziam todos os navios,
aqui estão todos os cais.

No meu peito cabem todas as dores do mundo
e todas as paixões que deixei de cultivar,
aqui cabem todos os que poderiam ser,
todas as ideias e todos os esboços,
os que foram
ficam pra trás.
Aqui os fantasmas e as concretudes,
às brumas tudo o que estava por acontecer.
Detêm-se os trens com todos os sonhos do mundo,
vão-se cheios
a Alcatraz. Continuar lendo

POESIA — Andorinhas catalãs

Os dias se arrastam como a ressaca do mar,

mas correm, como o sangue em veias frágeis;

a vida, tão curta, subitamente me parece tão longa…

E eu não estou disposta a vivê-la assim.

Meus sonhos me sustentam, pois parece que eu não tenho mais base.

Eu estou no limbo: eu quero viver

e eu quero morrer.

Eu quero sumir e quero existir.

Que me esqueçam, que me lembrem,

eu me importo e não me importo.

Quando o lúgubre medo surge,

eu o desfruto

e choro.


Entenda-me, eu te suplico:

eu me amordaço e me atiro ao mar.

Eu quero me afogar e quero viver,

eu quero transbordar.


Eu olho para o alto:

voando em círculos,

andorinhas catalãs.

POESIA — Cigana

Não ando sem rumo por desertos e campos floridos,

Não sou cigana por meus tecidos coloridos;

Se roubo cavalos não é por falta de dinheiro,

Se ando acompanhada não é pelo dia inteiro.

Não sou vidente, mas me guio pelo luar,

Se não tenho casa é por não querer comprar.

Não sou cigana por minhas constantes andanças;

Se me falta o resto todo, ainda tenho esperanças.

Mas se me ocorre dizer-me cigana, enfim,

É porque este coração não pertence mais a mim.

POESIA: Que seja eterno…

Quero nascer tua esposa

Para morrer tua amiga;

Cansada de ti com tuas mil manias.

Quero carinhos e beijos na testa;

Deitar contigo sem mais te desejar

Para, depois, desfrutar de tuas cortesanias.


Quero nascer tua esposa

Para morrer tua conhecida;

Ciente de tua incontestável beleza.

Quero reclamar de ti no chá da tarde

Para, então, totalmente surpreendida

Dizer “sim” ao voltarmos de Veneza.


Quero nascer tua esposa

Para morrer tímida

Sem nem saber que éramos inevitáveis.

Quero fugir à noite para beijos furtivos,

Ser pega em plena madrugada

Em atos impensados e condenáveis.


Quero nascer tua esposa

Para morrer ingênua;

Pensando comigo “como me haveria de querer?”.

Quero ruborizar-me em tardes ensolaradas

Escondida contigo em meu quarto cor-de-rosa

Sentindo regozijos e contorcendo-me em prazer.


Quero nascer viúva

Para chorar comigo

Os minutos que viveria sem ti

E morrer alheia à tua existência

Depois de sorrir-te sem dentes

No momento em que te desconheci.