RESENHA — Agosto, de Rubem Fonseca

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 5/5

Como a maioria dos leitores, tive contato com Rubem Fonseca por meio de seus contos. O primeiro livro que adquiri dele foi “Secreções, Excreções e Desatinos”, de 2001. Logo de cara percebe-se que Rubem é o tipo de autor que ou você ama ou você odeia. Objetivo, sádico e irônico, suas obras se caracterizam por frequentemente trazer à tona sentimentos como nojo, revolta e pena, mas sem escorregar na gratuidade de suas escolhas narrativas. Após ler duas coletâneas de contos, decidi arriscar o romance “O Caso Morel”, de 1973. Ao terminá-lo, já tinha Rubem como um de meus autores favoritos. Continuar lendo

RESENHA — O Clube dos Suicidas, de Robert Louis Stevenson

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 4/5

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Antes de nos aprofundarmos nas escolhas narrativas de Stevenson, tenhamos em mente seu contexto. Escocês de alma nômade, o escritor mudou-se diversas vezes, percorrendo países como Inglaterra, França, EUA e Suíça, velejando por arquipélagos do Pacífico-Sul e, finalmente, se instalando em Apia, nas Ilhas Samoa, onde veio a falecer. Publicou o clássico “O Médico e o Monstro” em 1886, que lhe deu notoriedade artística, mas já havia publicado títulos aclamados anteriormente, como “A Ilha do Tesouro”, resultado claro de seu apreço pelas aventuras e o primeiro a lhe render fama.

Aliás, essa palavra devia ser uma das favoritas de Stevenson, que gostava de pensar em si como uma figura heroica. Carregada de personagens repletos das virtudes mais virtuosas que existem, é evidente que parte de suas ficções era uma tentativa de pintar, mais até do que uma boa imagem literária, uma boa imagem pessoal. Pelo menos é essa a impressão que “O Clube dos Suicidas” deixa. Ambientado numa Londres extravagante, mas populada por almas em martírio, o livro, compostos por três novelas que se intersectam, é um dos precursores do gênero detetivesco ao lado de “O Homem na Multidão”, de Edgar Allan Poe. Deveras, Stevenson constrói uma narrativa que consiste, basicamente, em homens juntando pistas e informações para fazer prevalecer sua moral sobre outros corrompidos por uma sociedade virulenta. Continuar lendo

RESENHA — Acqua Toffana, de Patrícia Melo

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 4,5/5

Pode-se viver tranquilamente sem amor, mas não sem ódio.

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É com essa frase que Patrícia Melo resume ambas as novelas contidas em seu primeiro livro – cujo título, sugestivo, é homônimo ao de um veneno da Renascença, famoso por sua discrição e pelas mortes lentas e dolorosas, mas principalmente por se tratar de uma arma  popular entre mulheres que queriam se livrar de seus maridos. Aliás, esse é exatamente o plot da primeira história: uma mulher, desesperada, tenta convencer um delegado a prender seu esposo, quem ela acredita ser o assassino em série conhecido como ” estrangulador da Lapa”, mas sua narrativa ora mergulhada em delírio, ora numa certeza brutal, deixa tanto ele quanto nós com um pé atrás.

A personagem, uma autodeclarada nosofóbica, ansiosa e, por que não?, agorafóbica, descreve, com muitíssimos detalhes quando lhe convém, e pouquíssimos quando julga que a passagem é desinteressante, o caminho até sua conclusão e a decisão de recorrer à polícia. Rubão, o marido, um editor de programas de culinária, pouco a pouco perdeu o interesse nela, o que a deixou num estado depressivo e paranoico, culminando na suspeita de traição. Certo dia ela resolve segui-lo numa de suas “chamadas urgentes”, para flagrá-lo com outra mulher. Continuar lendo

RESENHA — Alma Menina, de Camila Silvestre

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 4,5/5

Em seu primeiro livro, Camila Silvestre se propõe a cruzar fronteiras. Como o viajante que não sabe direito qual será seu próximo destino, atravessa, com cuidado e determinação, os meandros de sua obra na pele de uma personagem cuja alma livre está presa no corpo de uma jovem letargiada pela vidinha extremamente simplória que leva no interior de São Paulo. Isso resulta em um livro que mistura o romance com contos, realismo com fantasia, autora e obra, leitor e personagem, rompendo todas as barreiras que possam se interpor entre um e outro, formando uma realidade tão própria e, ao mesmo tempo, tão universal que deixa a sensação de, quando concluído, termos experimentado uma jornada para muito além do que nossa mente pode alcançar.

A sensibilidade ao traduzir uma situação comum de forma tão particular é a maior qualidade da Camila, como autora. “Alma Menina” é um livro metonímico, isto é, ao falar de Mari, fala por todos os que já se encontraram na delicada situação de ter a vida aparentemente arranjada, mas ansiar por outra coisa – algo que não se sabe, ao certo, o que é. E ao se colocar como a personagem, utilizando-se da narrativa em primeira pessoa, mas tomando o cuidado de conceder-lhe sua singularidade, sem torná-la uma reprodução de si própria, oferece, também, o conforto da compreensão e da confidência – uma amiga que desabafa a respeito das perturbações de sua vida. Continuar lendo

RESENHA — Carol, Todd Haynes

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 5/5

Discorri longamente sobre o livro que deu origem a “Carol” aqui. Ainda assim julgo necessário escrever um artigo só para o filme, muito embora pouco reste para dizer a respeito da história. Trata-se de um caso em que a cinematografia fez toda a diferença e distanciou completamente as duas experiências – ambas excepcionalmente positivas -, o que mostra não só o poder da perspectiva sobre uma narrativa que foca na desconstrução de um personagem, como também a complementaridade das quinta e sétima artes. Se por um lado Patricia Highsmith escreveu uma obra doce e impactante sobre uma jovem se descobrindo através da paixão por uma mulher mais velha, o trio Todd Haynes-Phyllis Nagy-Ed Lachman reconstruiu o romance através dos contrastes, dando mais solidez a Carol, sem, contudo, abrir mão do torpor em que se encontrava Therese. O resultado disso é um filme que passeia por cenas carregadas de distorções oníricas, sentimentos que se estendem ao espectador por meio da trilha sonora e, claro, duas exímias performances que se chocam ao mesmo tempo em se equilibram. Continuar lendo

RESENHA — The Duke of Burgundy, P. Strickland

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 5/5

OBS: o texto a seguir contém alguns spoilers – nada que interfira na experiência, mas não tive como me esquivar deles; 90% do que é mencionado está no começo do filme.

O que difere uma obra de arte das outras com pretensões artísticas, ou das declaradamente alheias a tal propósito, é a gratuidade. Muito embora se possa dizer que nada é gratuito, tudo possui uma razão para existir – e, no caso da arte, tão subjetiva, para ser projetado –, é possível identificar, nas peças que nos são oferecidas, maior ou menor complexidade e maior ou menor densidade, isto é, como os elementos se conectam e quão exigentes são em sua interpretação.

Como a Literatura, o Cinema, quando empenhado em produzir algo que fuja do lugar-comum, precisa se apoiar muito mais na confiança de um público seleto e perspicaz o bastante para absorver tudo o que será transmitido do que no mero apelo de uma história “diferente”. Normalmente, isso significa ser fadado ao clamor dos críticos e à rejeição da massa. “The Duke of Burgundy” – que sequer chegou a ser traduzido quando veio parar no Brasil, graças à Netflix – é mais um desses casos; mesmo com alguns prêmios em sua conta (o International Cinephile Society Awards, por Melhor Filme, e o Grand Jury Prize por Melhor Narrativa no Philadelphia Film Festival, por exemplo), é underground o suficiente para que muito pouco se tenha ouvido falar dele à época de seu lançamento (fevereiro de 2015, no Reino Unido), que fará agora. Continuar lendo

RESENHA — Roseanna, Sjöwall & Wahlöö

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 2,5/5

Maj Sjöwall e Per Wahlöö são tidos como os precursores dos romances policiais escandinavos modernos. Sua série de dez livros, protagonizada pelo detetive Martin Beck e intitulada “A História de Um Crime” (acharão mais resultados se buscarem “The Story of a Crime”), é mundialmente renomada, e foi a responsável por consagrar o casal de jornalistas. Escrita em dez anos, aproveitando o horário em que seus filhos dormiam, dizem alguns, a série tem início com “Roseanna”, um suspense que envolve o estupro de uma jovem turista americana em circunstâncias que deixaram pouquíssimas evidências.

O corpo de uma mulher de origem desconhecida é encontrado durante a dragagem de um lago na Suécia. Sem qualquer pista de quem poderia ter cometido o crime, o inspetor Martin Beck mobiliza sua equipe em uma busca internacional por um assassino sem nome e sem rosto. Passados três meses, tudo o que sabe é que a jovem se chama Roseanna e pode ter sido assassinada por uma das 85 pessoas que estavam em um cruzeiro pelo Canal de Göta. Ao longo de meses de investigação, a lista de suspeitos, antes inexistente, ganha alguns nomes, até a polícia se deparar com um assassino cruel, que possui uma noção peculiar e doentia do que é certo e errado.

Confesso que esse foi um dos poucos livros que “comprei por comprar”. Estava na livraria sem saber o que procurava, numa dessas visitas aleatórias durante as quais esperamos alguma revelação divina, ou, no mínimo, uma capa mais interessante. “Roseanna” estava ali, junto de uma fileira de Sidneys Sheldons. Porque eu tinha acabado de ver uma série policial norte-americana inspirada numa série policial sueca, pensei que o livro teria mais ou menos a mesma qualidade (que não é lá muito alta, convenhamos, mas divertiu-me), especialmente por tratarem, julgando pela sinopse, da mesma coisa. Continuar lendo

RESENHA — Sombras, Eduardo Sabino

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 4,5/5

Eduardo Sabino foi o vencedor do concurso Brasil Em Prosa, o qual visava, através de avaliação por uma bancada de jurados envolvidos com Literatura, premiar o melhor miniconto publicado na Amazon. O concurso foi promovido pelo GLOBO em parceria com a plataforma digital e com apoio da Samsung.

O angariado foi “Sombras”, disponível para compra aqui.

Matheus era a nossa referência, o único que lia partituras. Com seus solos, as canções ganhavam beleza e potência. Tocar na garagem de Matheus com a banda, fechar os olhos e sentir a música, distinguir o som de cada instrumento e ver o modo como eles se combinavam em perfeito equilíbrio era o meu modo de sentir o que outras pessoas sentem em uma igreja, em um terreiro ou em um templo budista. O sentimento oceânico, a alegria plena, o reino de Deus.

Sabino acertou, sobretudo, no tema. Vivemos um momento delicado em termos de religião no Brasil; o cristianismo está abalado, a contestação se intensificou. O conto reflete isso, e fala direto aos mais contestadores: os jovens. Ponto extremamente positivo porque é um problema contemporâneo e, hoje, intrínseco à sociedade brasileira.

Acertou também na maioria das metáforas (associar Deus a uma história infantil, o gigante do João, foi uma jogada exemplar. Esse trecho, por mim, valia um conto por si) e não escorregou em rodeios, evitando converter o texto para um lirismo enfadonho.

Captou bem a essência de seu público-alvo inserindo um cotidiano familiar e uma frustração comum (o sonho interrompido), além, claro, do bônus (embora clichê) “banda de rock = música do capeta”. Também foi sensível ao tratar, enquanto contesta seu papel, a necessidade da religião. Equilibrou os dois, oferecendo reflexões que poderiam ser mais aprofundadas havendo maior limite de caracteres.

O título associa-se à clássica anedota de Platão, “O mito da caverna”. Batido, mas bem desenvolvido, permeia a narrativa através da relação do protagonista com seu avô – uma escolha que reforça a questão, levantada por Sabino, da influência da família na religiosidade dos jovens.

No todo, e considerando que o meu problema com o texto é puramente pessoal, entende-se o porquê de ter ganhado o concurso.

Disponível para leitura gratuita no site oficial d’O Globo.

RESENHA — O Preço do Sal, de Patricia Highsmith

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 4,5/5

Essa não será uma resenha crítica. Não primordialmente. Culpa do livro, não minha, porque se o peguei disposta a tecer uma análise aprofundada a respeito da narrativa e da construção da história como um todo, me descobri em um êxtase que tornou os detalhes incômodos em meros apontamentos irrelevantes.

Acontece que eu nunca tinha ouvido falar de O preço do Sal até o ano passado, quando saiu a notícia de que Todd Haynes iria adaptá-lo para o Cinema com Cate Blanchett num dos papéis principais. Como onde Cate vai, eu vou, desenvolvi uma obsessão pelo filme ainda na pré-produção. Claro que o tema lésbico também foi um grande contribuinte – a maior parte de minhas histórias aborda esse aspecto –, mas quanto mais eu conhecia da história através da adaptação, mais eu queria conhecer a versão original.

Pouco depois do lançamento do filme em Cannes, resolvi providenciar um arquivo para degustar os primeiros capítulos antes de adquirir oficialmente o livro. Baixei uma versão traduzida para o espanhol, e, ao me familiarizar com a história, comprei o e-book em inglês. Pretendo comprar a edição física também, e aqui está o veredito dessa resenha, nem é preciso ir adiante se não quiser: como boa leitora fetichista, eu não me conformo em não ter bons livros em mãos.

Delongas devidamente feitas, à sinopse:

Em plenos anos 50, a escritora Patricia Highsmith lançou Carol – primeiro romance que aborda uma relação amorosa entre mulheres com um final feliz. O polêmico livro foi publicado na época como The Price of Salt, sob o pseudônimo de Claire Morgan.

Na história, Therese Belivet trabalha como vendedora na seção de bonecas de uma loja de departamentos. O emprego funciona como um bico para juntar dinheiro: o que ela de fato quer é construir uma carreira como cenógrafa de teatro. É época de Natal em Nova York, e a loja está lotada. Em meio a tantos rostos desconhecidos, Therese fica hipnotizada ao ver uma distinta cliente se aproximar. É Carol. “Alta e clara, com um longo corpo elegante dentro do casaco de pele folgado (…), seus olhos eram cinzentos, claros e, no entanto, dominadores, como luz ou fogo”.

Assim começa o romance entre a jovem Therese e Carol – recém-separada e mãe de uma filha –, um amor repentino e fatal, que se transforma em uma constante troca de experiências. Mas, numa tentativa de escapar dos olhares reprovadores dos amigos e familiares, elas saem de carro em uma viagem pelos Estados Unidos. Essa aventura acaba se tornando perigosa quando elas percebem que estão sendo seguidas por um detetive.

O fato de ter sido escrito em uma época extremamente recatada confere o bônus da experiência ao drama de Patricia Highsmith. Valendo-se ao máximo do “show, don’t tell”, observamos o desenrolar dos acontecimentos sob a perspectiva indireta de Therese, uma jovem retraída e insegura que nos apresenta Carol como seu oposto – inabalável.

A narração é espontânea e ágil. A autora não se demora em cenas aparentemente inúteis, faz a transição de acordo com o que quer contar e só. A princípio, estranhei esse estilo. Os cortes são rápidos, como nos filmes que precisam caber em duas horas e por isso só passa o que for fundamental. Aliás, foi difícil separar o visual do trabalho de Haynes do que me era dado por Highsmith, mas não acredito que isso conte como ponto negativo – pelo contrário. Foi um casamento esplêndido, tal que eu aconselharia você que não leu a ir atrás das fotos antes de pegar no livro, e você, que leu, faça o mesmo antes de reler.

Ao mesmo tempo em que me perturbava, no entanto, eu achava extremamente ousado esse recurso. Não que os demais livros que li teçam situações inúteis, mas foi minha primeira experiência com algo tão dinâmico. Isso é bom, isso é ruim, vai do gosto do freguês.

Para mim, foi quase hipnótico. Como fitar atentamente o ir e vir dos carros pela janela. As páginas passam, os acontecimentos passam, as sensações passam; sem que se perceba, lá estão, borboleteando em seu inconsciente. Embora haja um toque lírico aqui e ali, não é a preocupação principal de Highsmith florear o que já é floreado. Em outras palavras, ela não vê necessidade em estender o amor a outros devaneios. O sentimento, por si, já é um.

Dessa forma, quando apresentados, os momentos mais poéticos são o biscoitinho que acompanha o café.

— What a strange girl you are.

— Why?

— Flung out of space. – Carol said.

O distanciamento que há entre o leitor e Therese, proporcionado pela narrativa em 3ª pessoa, e não 1ª, permite que enxerguemos um panorama um pouco maior do que o da personagem, no entanto Highsmith cuida para que as informações sejam filtradas por sua protagonista antes de chegar a nós. Assim, tendemos a pensar como Therese, manipulados por sua compreensão dos fatos, nos encantando com o que a encanta e nos frustrando com o que a frustra.

Dessa forma, acreditamos que Carol é, como descrita, impermeável, segura de si, dominadora. Com ou sem Cate Blanchett na cabeça, a personagem se faz tão presente que é quase palpável – o que é curioso, porque, dado o foco narrativo, sabemos tão pouco dela quanto Therese.

Aí que a parede entre o leitor e a obra se faz útil.

Carol é tão insegura e cheia de dúvidas quanto sua jovem amante, mas tem, seja pela maturidade, seja pela índole, a capacidade de disfarçar suas emoções. Seu amor pela filha, Rindy, em cheque com o amor por Therese, acaba por revelar esse lado mais frágil e é uma evolução tão natural e coerente, quase sutil, que mal dá para determinar quando essa ruptura entre o que se sente e o que se mostra acontece.

Ao mesmo tempo, vemos a Therese aparentemente inocente projetar em Carol seus próprios defeitos, e aí fica claro que não se tratam de duas pessoas tão diferentes assim. Ao chamá-la egoísta, Therese reflete seu egoísmo; ao julgá-la insensível, Therese se mostra incompreensiva; ao avaliar os possíveis receios e desejos de Carol, Therese revela os seus.

A impressão que temos é de que Carol tenta controlar o mundo ao seu redor sendo do jeito que é, mas Highsmith sutilmente traça o paralelo entre essa interpretação de Therese e seu comportamento. Quando vai empinar pipa com Richard, seu namorado, por exemplo, ela teme que a pipa voe alto demais e surta diante da ideia de não conseguir dominá-la.

A meu ver, é o caso de uma metáfora onde a pipa reflete os sentimentos que Therese não consegue controlar em relação a Carol, e isso a desespera.

Os demais elementos da história – a relação de Carol e Abby, os trâmites do divórcio com Harge, os homens renegados por Therese – apenas endossam a questão principal que é a delicadeza de um relacionamento desse tipo nos Estados Unidos da década de 50. A tensão do pós-guerra, a vontade de arrumar um mundo bagunçado pelos conflitos físicos e ideológicos, o moralismo que nasceu disso… O background está ali, sem que precise ser apontado.

E é aí que Highsmith inova ao conceder um final feliz ao casal.

Confesso que ele não me agradou tanto – esperava um drama mais hollywoodiano, talvez? – e que a inserção de Genevieve na narrativa me pareceu um tanto forçada – mas eu leria se houvesse um spin-off com ela, porque é uma personagem que me chamou a atenção. Contudo, é singelo, doce e deixa uma sensação de alívio. Ou melhor, deixa uma sensação de “quero mais”.

Tenha sido proposital a esperança intrínseca a esse fechamento ou não, O Preço do Sal rapidamente se tornou um clássico da dita “literatura LGBT”, que retribuiu a gentileza de não se deparar com mais uma tragédia transformando-o em best-seller. Por outro lado, seria demasiadamente reducionista atribuir o mérito a isso, apenas. O livro é daqueles que se aproveitam de sua sutileza para ir fundo no leitor desavisado, e de suas entrelinhas para servir aos mais atentos. Extremamente sensível e com figuras marcantes conduzindo a história, é certo que não será lido só uma vez.

Eu, ao menos, pretendo guardar a versão física debaixo do travesseiro.

RESENHA — A Carta, de Camila Silvestre

Resenha por: Anna Carolina Rizzon

NOTA: 5/5

Antes de me estender em pontos específicos, devo dizer que valorizo imensamente a identidade nacional na Literatura e que foi isso que me atraiu no conto da Camila. Como é algo que eu muitas vezes falho em reproduzir, admiro a capacidade da autora de explorá-lo tão bem, trazendo algo novo, mas enraizado na abordagem clássica dos grandes autores brasileiros.

Trata-se de um conto sobre a migração de um jovem para São Paulo em busca do seu amor de infância, a Pretinha, e todas as consequências dessa decisão.

A autenticidade do texto, associada a um cotidiano próximo e muito bem desenvolvido, nos oferece algo de fácil ingestão e, principalmente, digestão. A relação do protagonista com a Pretinha não se resume à sua posição social, embora seja influenciada por ela. A Camila soube equilibrar muito bem esses dois aspectos; trata-se de um personagem de classe desfavorecida, trabalhador e apaixonado. A identificação é instantânea, mas não chega a ser óbvia ou clichê. Daí seu maior mérito: a forma como as informações são apresentadas é repleta de metáforas e sacadas inovadoras.

[…] a cidade já o havia engolido, sem nenhuma preocupação em fazer-lhe sala. Tudo bem. Ele não vinha de visita.

Ela também não se estende em moralismos, preferindo deixar o aspecto sociológico por conta do leitor. Ela expõe a crueldade e crueza da vida do seu protagonista e isso basta para que nos consolidemos (ou não) dele. É um texto simples, direto e comovente.

Não tinha registro, ganhava pouco, mas tinha suas alegrias. Era, por exemplo, o melhor fazedor de troco de que se podia ouvir falar. Tinha orgulho em pegar o caixa no fim da tarde, vazio de moedas, notas graúdas que não lhe serviam de nada e, dali ao fim da noite, quando o bar finalmente fechava, quase fazer nascer uma fonte dos desejos.

Destaca-se também a linguagem ampla e a habilidade em expressar o que se quer dizer, isto é, tudo tem um propósito, nada é gratuito. Cada termo possui sua própria essência, o que demonstra que a autora se preocupou com a escolha de palavras e, principalmente, com a de sentimentos. “Fazia calor na plataforma, não o calor vivo de sua terra” é um bom exemplo. O tempo inteiro ela estabelece relações entre a mudança do protagonista para uma cidade-monstro, por amor, e a nostalgia que isso implicou. Reflete, assim, um sentimento muito familiar a nós: a dúvida.

Essa dúvida se estende à Pretinha, à vida que ele levou por sua conta e a vida que levava antes dela. A cidade, portanto, também é uma metáfora. A mudança é uma metáfora. E a carta, obviamente. O dobrar e desdobrar, expondo sua ansiedade, sua incerteza, seu possível arrependimento, mas também certa gratidão e apego à ideia de ter sido tão ousado… Ao jogá-la fora ele não só se desfaz do papel, mas do seu antigo eu, da Pretinha (talvez?), dos receios. A evolução do personagem é clara, dentro e fora da narrativa, o que nos leva ao último ponto.

É um texto que vai além do texto. É um texto que, embora pareça despretensioso, a princípio, possui diversas camadas. É uma história de amor, é uma crítica ao comportamento humano, é o reflexo de uma realidade que tá logo ali, é uma homenagem aos “Pretinhos” e às “Pretinhas”. Sem dúvida, algo que não termina ao fim da leitura.

Link para o conto: https://www.wattpad.com/77281926-a-carta